+ do livro marley & eu:
Todo cachorro necessita de um bom veterinário, um profissional
competente que o mantenha saudável, forte e imunizado contra doenças.
Todo novo dono de cachorro também precisa de um, principalmente pela
orientação, apoio e conselhos gratuitos que os veterinários dispensam em
boa parte de seu tempo. Batemos inúmeras vezes em porta errada. Um
deles era tão ausente que só víamos sua estagiária; outro era tão velho que
me convenci de que ele não conseguiria mais distinguir um chihuahua de
um gato. Outro estava visivelmente mais interessado em atender às
dondocas de Palm Beach e seus cães de colo minúsculos. Então, afinal,
encontramos o veterinário dos nossos sonhos. Ele se chamava Jay Butan —
Dr. Jay para os íntimos — jovem, bem apessoado, moderno e absurdamente
gentil. Dr. Jay entendia de cachorros. como os melhores mecânicos
entendem de carros, instintivamente. Era claro que ele adorava animais,
embora tivesse uma sensibilidade aguçada sobre o seu papel no mundo dos
homens. Nos primeiros meses, mantínhamos uma linha direta com ele e o
consultávamos sobre tudo e qualquer coisa, por mais doida que fosse a
pergunta. Quando Marley começou a ter manchas ásperas nos cotovelos,
temi que estivesse desenvolvendo um tipo raro e contagioso de doença de
pele. Relaxe, Dr. Jay me disse, são apenas calos por se deitar no chão. Um dia,
Marley bocejou e notei uma estranha descoloração roxa no fundo de sua
língua. Oh, meu Deus, pensei. Ele está com câncer. Há um sarcoma de
Kaposi em sua boca. Relaxe, Dr. Jay disse, é apenas uma mancha de
nascença.
Esta tarde, Jenny e eu esperávamos na sala de exames com Marley,
conversando sobre o agravamento de sua neurose durante as tempestades.
Acreditávamos que o incidente na garagem seria um fato isolado, mas foi
apenas o começo do que se tornou um padrão de fobia e comportamento
irracional permanente que duraria o resto de sua vida. Apesar de os
labradores terem fama de ser excelentes cães de caça, tínhamos um que se
sentia mortalmente apavorado com qualquer barulho mais alto que um
estouro de rolha de champanhe. Fogos de artifício, máquinas
propulsoras e tiros deixavam-no aterrorizado. Trovões eram um horror
por si só. Mesmo ameaças de tempestade deixariam Marley eletrizado. Se
estivéssemos em casa, ele se atracaria conosco, tremendo e babando sem
parar, olhos esbugalhados, orelhas para trás, o rabo entre as pernas.
Quando estava sozinho, tornava-se destrutivo, avançando contra qualquer
coisa que se interpusesse entre ele e um abrigo seguro. Um dia, Jenny
chegou em casa um pouco antes de uma tormenta e encontrou Marley,
alucinado, em cima da máquina de lavar, dançando desesperado,
arranhando a pintura com as patas. Como conseguiu saltar em cima da
máquina e como pressentiu a tempestade se aproximando para começo de
conversa, nunca descobrimos. As pessoas poderiam ser completamente
malucas e, como poderíamos ver, os cachorros também.
Dr. Jay colocou um vidro com pequenos tabletes amarelos em
minha mão e disse:
— Não deixe de usar isto.
Eram sedativos que iriam, como ele explicou, “terminar com a
ansiedade de Marley”.
A esperança, ele disse, era que, com os efeitos calmantes do remédio,
Marley passasse a reagir de forma mais racional durante as tempestades e
concluísse, afinal, que não eram senão um monte de barulho inofensivo. Era
comum a ansiedade causada por raios em cachorros, ele nos disse,
especialmente na Flórida, onde imensas nuvens carregadas de trovões
atravessavam a península quase toda tarde nos meses de verão tórrido.
Marley farejou o frasco em minhas mãos, como se estivesse ansioso para
começar uma vida de dependente químico.
Dr. Jay apalpou o pescoço de Marley e moveu os lábios como se
quisesse dizer algo importante, mas hesitou, como se não soubesse como
deveria dizê-lo:
— E — continuou, fazendo uma pausa —, provavelmente vocês
devessem começar a pensar seriamente em castrá-lo.
— Castrá-lo? — repeti. — Você quer dizer...?
Olhei para seus imensos testículos — duas grandes pelotas
desproporcionais — que balançavam entre as patas traseiras de Marley.
Dr. Jay também olhou para elas e assentiu. Eu devo ter-me
retraído, quem sabe, até me tocado, porque ele rapidamente
acrescentou:
— E indolor, na verdade, e ele se sentirá bem melhor...Foi neste mesmo momento, enquanto discutíamos cortar a
masculinidade de Marley, que Jenny passou a exigir uma atuação máscula
mais incisiva de minha parte. Dr. Sherman liberou-a para tentar engravidar
novamente. Ela aceitou o desafio com a compulsão de uma atleta olímpica.
A atitude de deixar as pílulas anticoncepcionais de lado e aceitar o que
acontecesse se foi. Na luta pela inseminação, Jenny estava no ataque. Para
isso, ela precisava de mim, um aliado-chave que controlava a entrega de
munição. Como a maioria dos machos, eu tinha passado todos os
momentos, a partir dos quinze anos de idade, tentando convencer o sexo
oposto que eu era um excelente parceiro de procriação. Finalmente,
encontrara alguém que concordava comigo. Eu deveria estar me sentindo
exultante. Pela primeira vez em minha vida, uma mulher me desejava mais
do que eu a ela. Era o paraíso. Não precisava mais mendigar, suplicar por
sexo. Como os melhores garanhões, finalmente eu estava sendo solicitado.
Eu deveria me sentir em êxtase. Mas, de repente, pareceu algo mecânico,
um trabalho estressante. Jenny não sentia tesão por mim: ela queria um
bebê. E isso queria dizer que eu tinha de me esforçar. Era algo sério. Da
noite para o dia, os mais deliciosos prazeres transformaram-se em testes
clínicos com medição de temperatura intra-uterina, calendários de
menstruação e tabelas de ovulação. Eu me senti um zangão servindo à
abelha-rainha.
Era tão excitante quanto uma auditoria fiscal. Jenny estava
acostumada que eu me sentisse excitado ao menor toque, e acreditou que
as antigas regras continuassem valendo. Eu poderia estar, por exemplo,
jogando o lixo fora, e ela entraria segurando o seu calendário e diria:
— Minha última menstruação veio no dia dezessete, o que quer
dizer que... — ela faria uma pausa para contar os dias a partir daquela
data — ...precisamos fazer sexo AGORA!
Os homens da família Grogan nunca suportaram fazer nada sob
pressão, e eu não era uma exceção à regra. Era apenas uma questão de
tempo antes que eu acabasse sofrendo a maior humilhação masculina:
brochar. E uma vez que isso acontecesse, estaria tudo terminado. Minha
confiança iria para o espaço, meus nervos ficariam abaladíssimos. Se isso
acontecesse uma única vez, eu sabia que acabaria se repetindo. Brochar
redundava em uma profecia de auto-destruição. Quanto mais eu me
preocupasse em cumprir o meu débito conjugal, menos seria capaz de
relaxar e fazer o que sempre fizera de modo natural. Eu suprimia todos os
sinais de afeição física para não pôr idéias na cabeça de Jenny. Comecei a
temer que minha mulher me pedisse, Deus me perdoe, para rasgar suas
roupas e estuprá-la. Passei a pensar que talvez uma vida celibatária em um
remoto mosteiro não seria um futuro tão terrível assim.
Jenny não iria desistir tão fácil assim. Ela era a caçadora, eu era a
caça. Certa manhã, quando eu estava trabalhando na redação do meu
jornal em West Palm Beach, a dez minutos de casa, Jenny me ligou do
seu trabalho e me perguntou se eu gostaria de almoçar com ela em casa.
Você quer dizer sozinho? Sem acompanhante?
— Ou poderíamos nos encontrar num restaurante — tentei
contornar.
Um restaurante bem cheio. De preferência, com vários colegas de
trabalho. E nossas duas sogras.
— Ah, qual é? — ela respondeu. — Vai ser divertido.
Então, ela baixou a voz num sussurro e acrescentou:
— Hoje é um bom dia. Eu... acho... que... estou... ovulando.
Senti-me apavorado. Oh, Deus, não. Isso não. A pressão
continuava. Era hora de comparecer ou morrer. Era, literalmente, “dá
ou desce”. Por favor, não me obrigue, eu quis suplicar ao telefone. Em vez
disso, perguntei no tom mais casual:
— Claro. Meio-dia e meia está bom para você?
Quando abri a porta da frente de casa, Marley, estava, como sempre,
esperando para me receber, mas Jenny não estava em parte alguma. Eu a
chamei.
— Aqui, no banheiro — ela respondeu. — Já vou em um minuto.
Dei uma olhada na correspondência, para disfarçar, antecipando uma
fatalidade, como se estivesse esperando o resultado de uma biópsia.
— Olá, marinheiro! — disse uma voz atrás de mim.
Quando me virei, Jenny estava ali num duas-peças de seda
sumário. Sua barriga lisa se entrevia sob a parte de cima que se
pendurava precária mente de seus ombros com duas alças
impossivelmente finas. Suas pernas nunca pareceram tão longas.
— Como estou? — ela perguntou, colocando as mãos na cintura.
Ela parecia incrível — era exatamente como ela se parecia. Jenny
sempre usou camisetas largas para dormir e eu percebi que ela estava se
sentindo ridícula neste modelito sensual. Mas surtiu o efeito desejado.
Ela correu para o quarto e eu a segui. Logo estávamos abraçados
em cima dos lençóis. Fechei os olhos e senti meu velho amigo se mover
novamente. A mágica havia voltado. Você consegue, John. Tentei me
concentrar nos pensamentos mais libidinosos que conseguisse
produzir. Vai dar tudo certo! Meus dedos começaram a puxar as alças
finíssimas de sua blusa. Vá em frente, John. Sem pressa. Eu podia
sentir seu hálito agora, quente e úmido sobre meu rosto. E pesado. Um
hálito quente, úmido e pesado. Mmmm, sexy.
Mas espere. Que cheiro era esse? Havia algo em seu hálito. Algo
estranho e familiar ao mesmo tempo, não exatamente desagradável,
mas não muito sensual. Eu conhecia aquele cheiro, mas não conseguia
distingui-lo. Hesitei. O que você está fazendo, seu idiota? Esqueça o
cheiro. Concentre-se, homem! Concentre-se! Mas aquele cheiro — eu
não conseguia sublimá-lo. Você está se desconcentrando, John. Não se
desconcentre. O que era? Mantenha o curso! Minha curiosidade estava
aumentando. Deixe pra lá, rapaz! Deixe pra lá! Comecei a farejar o ar.
Comida, sim, era comida. Mas que comida? Não era biscoito, não era
batata frita, não era atum. Quase me lembrava. Era... biscoito de
cachorro?
Biscoito de cachorro! Era isso! Ela estava com um hálito
cheirando a biscoito de cachorro. Mas por quê? Eu pensei — de fato,
ouvi uma voz sussurrar a pergunta em minha cabeça — Por que Jenny
comeu biscoitos de cachorro? Além do mais, eu podia sentir seus lábios
em meu pescoço... Como ela poderia beijar o meu pescoço e respirar
sobre o meu rosto ao mesmo tempo? Não fazia o menor...
Ah... meu... Deus!
Abri os olhos. Ali, a poucos centímetros, de cara para mim,
estava a imensa cabeça de Marley. Seu queixo estava sobre o colchão e
ele estava babando horrores, encharcando o lençol. Seus olhos estavam
semicerrados — e ele parecia também estar apaixonado. — Cachorro
mau! — eu gritei.
Ergui-me da cama.
— Não! Não! Vá se deitar! — ordenei, desorientado. — Vá se
deitar! Vá para sua cama!
Mas era tarde demais. A mágica se fora. O mosteiro retornara.
Descansar, soldado.
Na manhã seguinte, marquei uma consulta para levar Marley ao
veterinário para ter seus testículos removidos. Imaginei que se eu não iria
mais ter relações sexuais o resto da minha vida, ele também não iria. Dr.
Jay disse que poderíamos deixar Marley na clínica antes de ir trabalhar e
pegá-lo no caminho de volta para casa. Uma semana depois, foi
exatamente o que fizemos...qd eles fizeram ferias,deram pra baba d marley:
A lista de recomendações que preparei para ela não poderia ser
mais detalhada, como se estivéssemos deixando uma criança doente
sob seus cuidados. O relatório Marley tinha seis páginas cheias em
espaço um e tinha o seguinte texto:
ALIMENTAÇÃO: Marley come três vezes ao dia, duas
vasilhas em cada refeição. O copo de medida está dentro do
saco de ração. Por favor, alimente-o quando você se levantar
pela manhã e ao voltar do trabalho. Os vizinhos virão
alimentá-lo no meio da tarde. Isso soma seis xícaras de
comida por dia, mas se ele se mostrar faminto, por favor, dêlhe
uma xícara a mais. Como pode perceber, toda esta
comida tem de sair por algum lugar. Veja CONTROLE DO
COCÔ abaixo.
VITAMINAS: Toda manhã, damos a Marley um tablete de
vitamina para cães. O melhor modo de ministrá-lo é
simplesmente deixá-lo cair no chão e fazer de conta que ele
não deveria comê-lo. Se ele achar que é proibido, vai deglutilo.
Se por acaso esse método não funcionar, você pode
misturá-lo no meio da comida.
ÁGUA: No calor, é importante manter muita água fresca à
disposição dele. Trocamos a água que fica ao lado de sua
vasilha de comida uma vez por dia e jogamos fora se estiver
acabando e colocamos uma nova. Atenção: Marley gosta de
meter o focinho na vasilha de água e brincar de submarino.
Isto joga água para todo lado. Também a sua mandíbula
retém uma imensa quantidade de água, que escorre ao se
afastar da vasilha. Se você não tomar cuidado, ele vai secar a
boca em suas roupas e no sofá. Uma última recomendação:
ele normalmente se sacode depois de beber um bom gole de
água, e sua saliva voa nas paredes, nos abajures etc.
Tentamos limpar isso antes que seque, quando se torna quase
impossível de tirar.
PULGAS E CARRAPATOS: Se você vir pulgas ou
carrapatos no pêlo dele, você pode usar os sprays antipulga
e anticarrapato que temos em casa. Também temos um
inseticida que você pode usar nos tapetes etc, se você achar
que eles estão se espalhando. As pulgas são pequenas e ágeis
e difíceis de pegar, porém raramente atacam pessoas, nós
descobrimos, então, eu não ficaria muito preocupado.
Carrapatos são maiores e mais lentos e, de vez em quando,
encontramos no pêlo do Marley. Se você encontrar um
carrapato e tiver estômago para fazer isso, apenas pegue-o e
amasse-o num pano (você terá de apertá-lo com as unhas;
eles são muito duros) ou jogá-lo na pia ou na privada e dar a
descarga (a melhor opção se o carrapato estiver cheio de
sangue). Você provavelmente já ouviu falar de carrapatos
espalharem a Doença de Lyme entre seres humanos e todos
os problemas de saúde que eles podem causar, mas muitos
veterinários nos asseguraram que há muito pouco perigo de
se contrair essa doença na Flórida. Apenas como garantia,
lave bem as mãos depois de tirar um carrapato. O melhor
modo de retirar um carrapato do Marley é dar um brinquedo
para ele segurar na boca para distraí-lo, e espremer a pele
com uma das mãos e puxar o carrapato com a outra, usando
as unhas como pinça. Falando nisso, se ele começar a feder
muito, e você tiver coragem, poderá dar-lhe um banho na
piscina infantil que temos no quintal (apenas para este fim),
mas use um maiô. Você vai ficar encharcada!
OUVIDOS: Marley tem a tendência de juntar muita cera no
ouvido que, se não for limpado, pode causar infecções.
Enquanto estivermos viajando, por favor, aplique, uma ou
duas vezes, a solução azul para limpeza de orelhas com as
bolinhas de algodão, e tire o máximo de cera dos ouvidos de
Marley que puder. Como não é algo agradável de se fazer,
certifique-se de estar usando roupas mais velhas.
PASSEIOS: Se não sair para o seu passeio matinal, Marley
começa a bagunçar na garagem. Para sua própria saúde
mental, você pode sair para dar uma volta com ele à noite
antes de dormir, mas isto é opcional. Você poderá usar o
enforcador para sair com ele, mas nunca o deixe no pescoço
dele quando ele estiver sozinho. Ele pode se estrangular e,
conhecendo Marley como ele é, ele provavelmente
conseguiria fazer isso.
COMANDOS BÁSICOS: Caminhar com ele se torna muito
mais fácil se você fizer com que ele ande junto de você.
Sempre comece com ele sentado à sua esquerda e, em
seguida, dê o comando: “Marley, junto!”, e dê um primeiro
passo com o pé esquerdo. Se ele tentar arremeter à frente,
puxe a guia rápido para trás. Isso, em geral, funciona
conosco. (Ele já foi adestrado!) Se ele estiver sem a guia, ele
normalmente atende ao chamado de “Marley, venha!”.
Nota: é melhor que você esteja de pé e não agachada quando
você o chamar.
TEMPESTADE DE RAIOS: Marley tende a ficar um pouco
nervoso durante tempestades ou mesmo chuvas brandas.
Guardamos os sedativos dele (as pílulas amarelas) no armário,
junto com as vitaminas. Uma pílula ministrada trinta minutos
antes da tempestade começar (você vai acabar virando uma
metereologista depois disso!) deve bastar. Fazer Marley engolir
esta pílula é uma arte. Ele não vai engolir como faz com as
vitaminas, mesmo que deixe cair no chão e finja que ele não
deva comer. A melhor técnica é segurá-lo e forçar sua
mandíbula com uma das mãos. Com a outra, você empurra a
pílula o mais fundo possível em sua garganta. Você deve
colocá-la bem no fundo senão ele a põe para fora. Em seguida,
alise a garganta dele até que ele tenha engolido. Com certeza,
você deverá querer se lavar depois disso.
CONTROLE DO COCÔ: Há uma pá encostada na
mangueira no quintal que uso para recolher as fezes de
Marley. Sinta-se à vontade para limpar logo depois que ele
evacuar tantas vezes quantas quiser, dependendo de quanto
quiser andar pelo quintal. Olhe onde pisa!
PROIBIÇÕES: Marley está PROIBIDO de:
‘«á Subir nos móveis.
Mastigar a mobília, sapatos, travesseiros etc.
Beber água do vaso (melhor manter a tampa abaixada o
tempo todo, porém, cuidado: ele já descobriu como abri-la
com o nariz).
Cavar no quintal ou arrancar a raiz de plantas e flores. Em
geral, ele faz isso quando acha que não está recebendo
bastante atenção.
Fuçar no lixo (você deverá manter o lixo em cima do balcão).
Pular em cima das pessoas, cheirar virilhas ou ter qualquer
comportamento socialmente inaceitável. Temos tentado curálo
especialmente do hábito de mordiscar o braço das
pessoas, o que você pode imaginar, não é todo mundo que
aprecia. Vamos precisar de um pouco mais de paciência com
isso. Sinta-se à vontade de lhe dar uma palmada no
bumbum e dizer: “Não!”.
Mendigar à mesa por comida.
Empurrar a tela da porta da frente ou de trás (você verá
que várias já foram substituídas).
Obrigado mais uma vez por fazer tudo isto por nós, Kathy. Este é
um imenso favor. Creio que não conseguiríamos viajar se não fosse por
você. Espero que você e Marley se tornem bons amigos e você se divirta
com ele tanto quanto nós.
Dei as recomendações para Jenny...
isso é tudo,deixarei de colocar pra vc comprarem o livro ;)
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segunda-feira, 7 de março de 2011
+ do livro marley & eu:(ñ tdo)
Nossos amigos que tinham crianças pequenas e vinham nos
visitar, comentavam:
— A casa de vocês já é à prova de bebês!
Marley não sacudia seu rabo. Ele sacudia o seu corpo todo,
começando pelos ombros indo até o fim do outro lado. Ele era a versão
canina de Slinky. Poderíamos jurar que não havia ossos dentro dele,
apenas um único longo músculo elástico. Jenny começou a chamá-lo de
Sr. Terremoto.
E em nenhum outro momento ele se sacudia mais do que quando
tinha alguma coisa em sua boca. Sua reação em qualquer situação era a
mesma: agarrar o sapato, travesseiro ou lápis mais próximo — realmente
qualquer coisa servia — e sair correndo com ela. Uma voz em sua
cabeça deveria lhe sussurrar: “Vá em frente! Pegue isto! Babe bastante
em cima dele! Agora, saia correndo!”.
Alguns dos objetos que ele agarrava eram pequenos o suficiente
para serem escondidos, e isso o agradava muito — ele acreditava que
ninguém perceberia. Mas Marley nunca iria ser um bom jogador de
pôquer. Quando queria ocultar alguma coisa, não conseguia disfarçar
seu contentamento. Ele era sempre muito ativo, mas havia momentos
em que ele explodia num surto hiperativo, como se um espírito
brincalhão tivesse puxado o seu rabo. Seu corpo se contorcia, sua
cabeça balançava de um lado para outro, seu traseiro se movia numa
dança extática. Nós chamávamos isso de “Marley Mambo”.
— Muito bem, o que foi que você pegou desta vez? — eu dizia e,
ao me aproximar, ele começava a bater em retirada, correndo em
desenfreada carreira pela sala, sacudindo os quadris, a cabeça subindo e
descendo como um brinquedo de parque de diversões, tão exultante com
seu prêmio proibido que ele mal conseguia se conter. Quando
finalmente eu conseguia cercá-lo e o forçava a abrir a boca, eu nunca
deixava de encontrar alguma coisa. Sempre havia algo que ele pegara no
lixo ou do chão ou, à medida que ele crescia e ficava mais alto, de cima
da mesa de jantar. Guardanapos, lenços de papel usados, recibos de
supermercado, rolhas, clipes de papel, peças de xadrez, tampas de
garrafa — parecia uma arca inesgotável. Certo dia, abri suas mandíbulas
e encontrei meu contracheque grudado no céu da boca...
Dentro de algumas semanas, mal conseguíamos nos lembrar como era
a vida antes de nosso novo morador chegar. Rapidamente, entramos numa
rotina. Eu começava todas as manhãs, antes de tomar minha primeira
xícara de café, levando-o para passear na praia e voltava. Depois do café
da manhã, antes de tomar uma ducha, eu revirava o quintal com uma pá,
enterrando suas “minas” terrestres na areia no fundo do terreno. Jenny
saía para o trabalho antes das nove horas, e eu raramente saía de casa
antes das dez, primeiro fechando Marley na garagem com uma vasilha de
água fresca, uma pilha de brinquedos, e minha sorridente recomendação
para ele “ser um bom menino”. Ao meio-dia e meia, Jenny voltava para
casa para almoçar, quando ela lhe servia o almoço e jogava uma bola para
ele no quintal até ele ficar ofegante. Nas primeiras semanas, ela também
voltava para casa rapidamente no meio da tarde para deixá-lo sair para fazer
suas necessidades. Na maior parte das vezes, depois do jantar,
caminhávamos com ele até a costa, onde passeávamos ao longo da
Intracoastal, enquanto os iates de Palm Beach vagavam sob o fulgor do pôrdo-
sol.
Passear é provavelmente o termo errado. Marley passeava como
uma locomotiva desenfreada. Ele se lançava à frente, puxando a coleira
com todas as forças, engasgando enquanto nos arrastava atrás dele. Nós
puxávamos a coleira de volta e ele nos puxava adiante. Nós puxávamos
para trás, ele puxava para a frente, tossindo como um fumante
inveterado devido à coleira apertando seu pescoço. Ele virava para a
esquerda e para a direita, avançando sobre toda caixa de correio ou
arbusto, farejando, arfando e mijando sem parar inteiramente, em geral,
mijando mais em si mesmo do que no lugar que escolhera. Ele andava
em círculos à nossa volta, enrascando a coleira em nossos tornozelos
antes de voltar à carga novamente, quase nos derrubando. Quando
alguém se aproximava com outro cachorro, Marley pulava em cima deles
todo alegre, abaixando as patas traseiras ao chegar à extensão máxima de
sua coleira, morrendo de vontade de fazer novas amizades.
— Ele parece realmente amar a vida — comentou um dos donos
de cachorro que encontramos pelo caminho, e isso disse tudo...
Nosso filhote sofria de um caso de desordem hiperativa com déficit de
atenção.
Mesmo assim, apesar de todos os seus ataques infantis, Marley
desempenhava um papel importante em nosso lar e em nosso
relacionamento. Com sua truculência, ele mostrava a Jenny que ela
tinha um lado maternal. Ela havia cuidado dele por várias semanas, e
ainda não o havia esganado. Muito pelo contrário, ele estava
florescendo. Nós brincávamos que talvez devêssemos começar a
alimentá-lo menos para estancar seu crescimento e reduzir o seu grau
de energia.
A transformação de Jenny de uma fria assassina de plantas à
devotada mãe de cachorro continuava a me abismar. Acho que ela também
se abismava um pouco com isso. Ela fazia isso naturalmente. Um dia,
Marley começou a ter violentas ânsias de vômito. Antes que eu percebesse
que havia realmente um problema, Jenny estava junto dele. Ela o pegou,
abriu sua boca com uma das mãos e, com a outra, puxou do fundo da
garganta um pedaço de celofane encharcado de saliva. Tudo num dia.
Marley tossiu mais uma vez, bateu o rabo contra a parede, e olhou para ela
como se dissesse: “Vamos fazer isso de novo?”.
A medida que nos familiarizávamos com o novo membro de nossa
família, sentimo-nos mais a vontade para falar sobre aumentá-la de outros
modos. Algumas semanas depois de trazer Marley para casa, decidimos
parar de usar métodos anticoncepcionais. Não quer dizer que decidimos que
Jenny iria engravidar, o que seria corajoso demais para pessoas que haviam
dedicado suas vidas à mais completa indecisão sobre esse tipo de coisa. Ou
melhor, resolvemos reconsiderar o assunto, apenas decidindo parar de não
querer que ela engravidasse. Era uma lógica confusa, nós admitimos, mas,
de alguma forma, fez com que nos sentíssemos melhor. Sem pressão.
Nenhuminha. Não estávamos tentando ter um filho; estávamos apenas
deixando isso acontecer naturalmente. Deixando que a natureza se
encarregasse. Que será, será e todo esse tipo de coisa.
Sinceramente, morríamos de medo disso. Tínhamos diversos
amigos que tentaram por vários meses, até mesmo anos, sem
sucesso e que lentamente tornaram público o seu desespero
pessoal. Nos jantares, conversavam obsessivamente sobre consultas
médicas, contagens de espermatozóides e ciclos menstruais
controlados, gerando um mal-estar para todos à mesa. Ou seja, o que
se diz numa hora dessas? “Acho que a contagem dos seus
espermatozóides está ótima!” A conversa se tornava insuportável.
Sentíamo-nos apavorados em acabar como eles.
Jenny havia sorrido vários ataques de endometriose antes de nos
casarmos e havia se submetido a uma laparoscopia para remover o
excesso de tecido endométrico de suas trompas de falópio, o que pode
provocar infertilidade. E ainda mais perturbador era um pequeno segredo
nosso. Cegos de paixão, no início do nosso namoro, quando o desejo
solapava todo bom senso que tivéssemos, pusemos todas as precauções de
lado amontoadas com nossas roupas e fizemos amor sem nos preocupar,
sem usar qualquer método contraceptivo. Não apenas uma, mas várias
vezes. Foi muito cretino de nossa parte e, pensando bem, hoje,
deveríamos beijar o chão em agradecimento por termos escapado
milagrosamente de uma gravidez indesejada. Em vez disso, poderíamos
pensar: “O que há de errado conosco? Nenhum casal normal poderia ter
transado daquela forma sem proteção alguma e escapado ileso”.
Estávamos convencidos de que conceber uma criança não iria ser fácil.
Ao contrário dos nossos amigos que anunciavam seus planos para
tentar engravidar, permanecemos em silêncio. Jenny iria simplesmente
deixar sua receita de pílulas anticoncepcionais dentro do armário de
remédios e esquecê-la ali. Se engravidasse, ótimo. Se não engravidasse,
bem, não estávamos na realidade tentando fazer nada disso agora, não
é?...Algumas semanas depois, estávamos deitados na cama lendo,
quando Jenny fechou seu livro e disse:
— Vai ver que não é nada.
— O que não é nada? — perguntei, absorto, sem desviar meus
olhos do meu livro.
— Minha menstruação está atrasada.
Com isto, ela conseguiu chamar toda a minha atenção:
— Sua menstruação? Está...?
Eu me virei para encará-la.
— Isso acontece algumas vezes. Mas já faz mais de uma semana.
E estou me sentindo esquisita também.
— Esquisita, como?
— Como se eu estivesse constipada ou algo do gênero. Eu bebi um
gole de vinho no jantar outro dia e eu achei que fosse pôr tudo para
fora.
— Você nunca fez isso.
— Só de pensar em bebida alcoólica fico enjoada.
Eu nem ousei dizer isso a ela, mas ela andava um bocado mal
humorada ultimamente.
— Você acha que...? — comecei a perguntar.
— Eu não sei. O que você acha?
— Como é que eu vou saber?
— Eu não disse nada — respondeu Jenny. — Vai saber... sabe
como é? Para não dar azar.
Neste momento, eu entendi quão importante isso era para ela — e
para mim também. De alguma forma, a paternidade havia tomado conta
de nós: estávamos prontos para ter nosso bebê. Ficamos deitados ali, um
ao lado do outro, por um longo tempo, sem dizer nada, olhando para o
teto.
— Não vamos conseguir dormir assim — eu disse, finalmente.
— Esse suspense está me matando — ela admitiu.
— Venha, vista-se — eu disse. — Vamos a uma farmácia comprar
um teste de gravidez.
Vestimos shorts e camiseta e saímos pela porta da frente, Marley
correndo na nossa frente, felicíssimo com a perspectiva de um passeio
de carro tarde da noite. Ele se erguia nas patas traseiras no banco
traseiro do nosso pequeno Toyota Tercel, saltando para cima e para
baixo, sacudindo, babando, arfando, tomado de ansiedade, esperando o
momento em que eu abrisse a porta traseira do carro.
— Veja só, até parece que ele é o pai — brinquei.
Quando abri a porta, ele saltou no banco de trás com tanta
vontade que voou até bater a cabeça na janela do outro lado,
aparentemente sem se machucar.
A farmácia ficava aberta até a meia-noite, e eu esperei dentro do
carro com Marley, enquanto Jenny foi correndo comprar o teste. Há
certas coisas que homens não devem comprar numa loja e um teste de
gravidez em farmácia é uma delas. Marley andava de um lado para o
outro no banco de trás, choramingando, os olhos grudados na porta de
entrada da farmácia. Como era de sua natureza toda vez que ficava
ansioso, o que acontecia quase o tempo todo, ele arfava e salivava
muito.
— Pelo amor de Deus, sossegue! — eu disse a ele. — O que você
acha que ela vai fazer? Fugir pela porta dos fundos?
Ele respondeu sacudindo-se inteiro, atirando baba de cachorro e
pêlos soltos em cima de mim. Como estávamos habituados com o
comportamento de Marley dentro do carro, tínhamos sempre uma
toalha de banho de emergência no banco da frente, e eu a usei para me
secar e limpar o interior do carro.
— Sossegue! — eu exclamei. — Tenho certeza de que ela vai
voltar.
Cinco minutos depois, Jenny retornava com uma pequena sacola
na mão. Ao sair do estacionamento, Marley encaixou os ombros entre
os assentos dos bancos dianteiros, balançando suas patas dianteiras
sobre o console central, com o nariz tocando o espelho retrovisor. Cada
curva o derrubava, de barriga, sobre o freio de mão. E a cada tombo,
imperturbado e mais feliz do que nunca, ele tornava a se postar no
mesmo lugar.
Alguns minutos mais tarde, estávamos de novo em casa, no
banheiro, com o teste de gravidez, que custou US$ 8.99, aberto ao lado
da pia. Eu li as instruções em voz alta:
— Muito bem — eu disse —, aqui diz que ele tem um acerto em
99% dos casos. A primeira coisa que você vai ter de fazer é pipi no
copinho.
O passo seguinte era mergulhar a fita plástica do teste na urina e
depois em um pequeno tubo com uma solução que vinha junto com o
teste.
— Espere cinco minutos — eu disse. — Depois colocamos na
segunda solução por quinze minutos. Se ficar azul, você está
oficialmente grávida, querida!
Marcamos os primeiros cinco minutos. Depois Jenny colocou a
fita no segundo tubo e disse:
— Eu não agüento ficar aqui esperando.
Fomos para a sala e começamos a conversar sobre qualquer coisa,
fazendo de conta que estávamos esperando a água da chaleira ferver.
— Você viu o jogo dos Dolphins? — eu arrisquei, mas meu
coração se acelerara, e eu sentia um frio no estômago.
Se o resultado do teste fosse positivo, puxa vida, nossas vidas
iriam mudar para sempre. Se fosse negativo, Jenny iria ficar
decepcionada. Eu estava começando a perceber que eu ficaria também.
Depois do que pareceu uma eternidade, o temporizador tocou.
— Aí vamos nós — eu disse. — Não importa qual seja o
resultado, saiba que eu amo você.
Fui até o banheiro e pesquei a fita do teste do tubo. Sem dúvida,
estava azul. Azul como o fundo do mar. Um azul-marinho escuro, denso,
brilhante. Um tom de azul que não poderia ser confundido com nenhuma
outra cor.
— Parabéns, querida! — eu disse.
— Oh, meu Deus! — foi tudo que ela conseguiu dizer, e se jogou
em meus braços.
Abraçados ali, de olhos fechados, junto à pia do banheiro, aos
poucos me dei conta de algo se mexendo em torno dos nossos pés.
Olhei para baixo e lá estava Marley, sacudindo-se, balançando a
cabeça, abanando o rabo, batendo contra a porta do closet com tanta
força que poderia parti-la. Quando me abaixei para acariciá-lo, ele
escapuliu. Oh-oh. Era o Marley Mambo e isso significava apenas uma
coisa.
— O que você tem aí desta vez? — perguntei, e comecei a
persegui-lo.
Ele correu para a sala de visitas, escapulindo por pouco. Quando
finalmente consegui segurá-lo e abri sua bocarra, de cara, não vi nada.
Depois, no fundo de sua língua, quase descendo pela garganta, vi
alguma coisa. Era algo longo, fino e achatado. E era azul como o fundo
do mar. Pincei sua garganta e puxei a fita de teste de gravidez positiva
para fora.
— Desculpe desapontá-lo, camarada — eu disse —, mas isto eu
vou guardar em meu livro de recordações...
A gravidez fez muito bem à Jenny. Ela se levantava pela manhã
para se exercitar e caminhar com Marley. Ela preparava refeições
nutritivas e saudáveis, cheias de legumes e frutas frescas. Ela eliminou a
cafeína e refrigerantes dietéticos e, claro, qualquer bebida alcoólica, não
me permitindo nem mesmo colocar uma colher de sopa de xerez para
temperar a comida.
Ela jurou manter segredo sobre a gravidez até que estivéssemos
certeza de que o feto estivesse firme sem risco de aborto espontâneo,
mas nem ela nem eu conseguimos disfarçar. Estávamos tão
entusiasmados que confidenciamos a novidade a todos de nossos
parentes e amigos, pedindo segredo, até que não fosse mais segredo.
Primeiro contamos aos nossos pais, depois aos nossos irmãos, então aos
amigos mais íntimos, em seguida aos nossos colegas de trabalho e
vizinhos. Com dez semanas, a barriga de Jenny começou a arredondarse
de leve. A gravidez parecia mais palpável. Por que não dividir nossa
alegria com o resto do mundo? Quando chegou o dia do exame e de
ultra-som de Jenny, era como se tivéssemos colocado um anúncio num
outdoor: John e Jenny estão esperando um bebê.
No dia do exame médico, não fui trabalhar pela manhã e, como foi
pedido, trouxe uma fita de vídeo virgem para podermos registrar as
primeiras imagens granuladas do nosso filho. A consulta seria uma
sessão de check-up e de instruções. Iríamos conversar com uma
obstetra que responderia a todas as nossas perguntas, medir a barriga
de Jenny, ouvir os batimentos cardíacos do bebê e, claro, mostrar-nos
suas feições dentro do seu útero.
Chegamos às nove da manhã, ansiosos. A obstetra, uma senhora
gentil de meia-idade, com sotaque britânico, conduziu-nos a um
pequeno consultório de exames e perguntou na mesma hora:
— Gostariam de ouvir os batimentos do coração do bebê?
Claro que sim, nós respondemos. Ouvimos atentamente enquanto
ela passava um tipo de microfone adaptado a um pequeno alto-falante
sobre a barriga de Jenny. Ficamos em silêncio, o sorriso congelado em
nosso rosto, auscultando para ouvir batidas abafadas, mas só havia
estática.
A obstetra disse que isso era comum.
— Depende da posição do bebê dentro do útero. Às vezes, não se
consegue ouvir nada. Pode ser que ainda seja cedo.
Ela sugeriu passarmos para o ultra-som.
— Vamos dar uma olhada no seu bebê — ela disse num tom
faceiro.
— Nossa primeira visão do bebê Grogie — disse Jenny, sorrindo
para mim.
A obstetra nos levou até a sala de ultra-som e deitou Jenny
sobre a mesa de exame com uma tela de monitor ao lado dela.
— Eu trouxe a fita — eu disse, agitando-a na frente dela.
— Segure-a por enquanto — respondeu a obstetra, puxando a
blusa de Jenny e começando a passar um instrumento sobre a barriga
dela que tinha a mesma dimensão e formato que um taco de hóquei.
Olhamos para o monitor do computador e vimos uma massa cinza
indefinida.
— Humm, não dá para ver nada — disse ela, sem alterar o tom de
voz.
— Vamos tentar um ultra-som transvaginal. Dá para pegar muito
mais detalhes desse modo.
Ela saiu da sala e voltou alguns momentos depois com outra
enfermeira, uma loura alta com um monograma nas unhas dos dedos das
mãos. Chamava-se Essie, e pediu a Jenny que tirasse a calcinha, e depois
inseriu um sensor coberto de látex em sua vagina. A obstetra estava
certa: a resolução era muito superior à do ultra-som. Ela aproximou a
imagem sobre um aparente invólucro diminuto no meio de um mar
cinzento e, com um clique do mouse, aumentou-o duas vezes e depois
uma terceira vez. Mas apesar de toda resolução, o invólucro parecia
apenas vazio e informe para nós. Onde estavam os bracinhos e
perninhas que os livros de gravidez diziam que estariam formados em
torno de dez semanas? Onde estava a cabecinha? Onde estavam os
batimentos cardíacos? Jenny, com o pescoço esticado olhando para a
tela, ansiosa, perguntou às enfermeiras com um riso um pouco nervoso:
— Há algo aí?
Eu ergui os olhos para ver a expressão de Essie e eu percebi que
não queríamos ouvir a resposta. De repente, entendi por que ela não
respondia enquanto continuava aumentando a imagem. Ela disse a
Jenny num tom de voz controlado:
— Não o que se esperaria ver com dez semanas.
Coloquei minha mão sobre o joelho de Jenny. Continuamos
olhando fixamente para a tela, como se pudéssemos dar-lhe vida.
— Jenny, acho que temos um problema aqui — Essie disse. —
Deixe-me chamar o Dr. Sherman.
Enquanto esperávamos em silêncio, descobri o que as pessoas
querem dizer quando tentam descrever o enxame de gafanhotos que se
abate sobre alguém um pouco antes de desmaiar. Senti o sangue fugir de
minha cabeça e meus ouvidos zuniram. Se eu não me sentar, pensei, vou
cair no chão. Que vergonha seria isso. Minha mulher, tão corajosa,
suportando a notícia estoicamente, enquanto seu marido caía,
inconsciente, as enfermeiras tentando reavivá-lo com sais aromáticos.
Continuei meio sentado na beira da mesa de exames, segurando a mão de
Jenny e passava os dedos em seu pescoço com a outra mão. Seus olhos se
encheram de lágrimas, mas ela segurou o choro.
Dr. Sherman, um homem alto e bem apessoado com expressão
séria, mas afável, confirmou que o feto estava morto.
— Teria sido possível captar os batimentos cardíacos, sem
dúvida — ele disse.
Ele nos disse, com candura, o que já havíamos lido nos livros. Que
uma em cada seis gravidezes resulta em aborto. Que esta era a forma da
natureza dispensar os bebês que fossem mais fracos, mentalmente
comprometidos ou deformados. Aparentemente lembrando-se da
preocupação de Jenny quanto aos exterminadores de pulgas, ele nos
disse que não havia nada que pudéssemos ter feito ou não ter feito. Ele
tocou o rosto de Jenny e aproximou-se dela como se fosse beijá-la:
— Eu sinto muito — ele disse. — Vocês podem tentar
novamente dentro de alguns meses.
Ficamos em silêncio. A fita virgem de vídeo sobre o banco ao
nosso lado de repente pareceu-nos constrangedora, lembrando-nos,
de forma dolorosa do nosso otimismo cego e ingênuo. Eu quis jogá-la
na parede. Quis escondê-la.
Perguntei ao médico:
— O que fazemos agora?
— Temos de remover a placenta — ele disse. — Há alguns anos,
vocês ainda não teriam sabido do aborto até a hemorragia começar.
Ele nos deu a opção de esperar o fim de semana e voltar na
segunda-feira para fazer o procedimento, que seria o mesmo que um
aborto provocado, o feto e a placenta sendo sugados do útero, mas
Jenny queria que isto acabasse logo, e eu também.
— Quanto mais cedo melhor — ela disse...— Você deveria se comportar como um labrador — eu gritei. —
Não como um labrador fugitivo.
Mas o que eu tinha, e meu cão não, era um cérebro evoluído que
excedia pelo menos um pouco a força muscular. Agarrei uma segunda
vareta e comecei a brincar com ela. Segurei-a acima da minha cabeça e
comecei a jogá-la da mão direita para a esquerda. Arremessei-a de um
lado para o outro. Notei que Marley mudou de atitude. De repente, a
vareta em sua boca, que havia apenas alguns minutos era o objeto mais
desejado que ele poderia imaginar sobre a face da Terra, perdeu todo o
interesse. A minha vareta arrebatou toda a sua atenção. Ele se
aproximou devagarzinho, até ficar a poucos centímetros de mim.
— Nasce um bobo todo dia, não é, Marley? — eu ri, passando a
vareta em frente ao focinho dele e observando-o, enquanto ele ficava
vesgo tentando segui-la.
Eu podia ver os miolos funcionando em sua cabeça enquanto ele
pensava como iria pegar a nova vareta sem soltar a primeira. Seu lábio
superior tremia quando ele arriscava agarrar a segunda sem deixar cair a
outra. Logo coloquei minha mão livre firme na ponta da vareta em sua
boca. Eu puxava de um lado e ele puxava de outro, rosnando. Pressionei
a segunda vareta contra seu focinho.
— Você sabe que quer esta outra — sussurrei.
E como! A tentação era forte demais para ele agüentar. Eu podia
sentir sua boca afrouxando em volta da primeira vareta. E então ele se
moveu. Abriu as mandíbulas para tentar pegar a segunda vareta sem
largar a primeira. Num segundo, puxei as duas acima da minha cabeça.
Ele saltou no ar, latindo e girando, obviamente sem entender como uma
estratégia tão ardilosa da parte dele poderia ter ido água abaixo.
— E por isso que eu sou o dono e você é o cachorro — respondi.
E ao dizer isso, ele jogou mais água e areia sobre o meu rosto.
Arremessei uma das varetas na água e ele correu atrás dela,
latindo loucamente enquanto corria. Ele retornou como um oponente
novo, refrescado. Desta vez ele estava sendo mais cauteloso e se recusou
a se aproximar de mim. Ele permaneceu a cerca de dez metros de
distância, com a vareta em sua boca, olhando para seu novo objeto de
desejo, que era apenas o seu velho objeto de desejo, sua primeira
vareta, que estava agora no alto acima da minha cabeça. Eu podia ver
seus miolos funcionando novamente. Ele deveria estar pensando:
“Desta vez, vou só esperar aqui até que ele atire e então ele não terá
nenhuma vareta e eu terei as duas”.
— Você realmente pensa que eu sou burro, não é, cachorro? —
perguntei.
Inclinei-me para trás e com um gemido longo e exagerado,
atirei a vareta com todas as minhas forças. Óbvio que Marley zuniu
para dentro d’água com a sua vareta ainda presa entre os dentes. O
único detalhe era que eu não havia atirado nada. Você imagina que
Marley sacou isso? Ele nadou até longe até perceber que a vareta ainda
estava em minha mão.
— Você é um sádico! — Jenny gritou sentada no banco e eu olhei
para trás e vi que ela estava rindo.
Quando Marley finalmente voltou à praia, ele afundou na areia,
exausto, mas sem soltar a sua vareta. Ele lhe mostrei a minha,
lembrando-lhe o quanto era melhor que a dele, e ordenei:
— Solte!
Eu levantei o meu braço para trás como se fosse jogar, e o bobão
se levantava novamente num instante e se virava para se jogar para a
água novamente.
— Solte! — eu repetia assim que ele voltava.
Foram precisas umas três tentativas, mas finalmente ele fez o que
eu queria. E no instante em que sua vareta caiu na areia, lancei a minha
no ar para que ele pegasse. Repetimos isto diversas vezes e, cada vez, ele
parecia entender um pouco mais claramente o que eu estava fazendo.
Aos poucos, a lição começou a entrar naquela sua cabeça dura. Se ele
me devolvesse a. sua vareta, eu arremessaria uma nova para ele.
— É como uma troca de presentes de amigo oculto — eu disse. —
Você precisar dar para receber um.
Ele saltou e beijou-me com sua boca cheia de areia, que eu
interpretei como um reconhecimento de que havia aprendido a lição.
Quando Jenny e eu caminhávamos de volta para casa, Marley
estava tão cansado que, pela primeira vez, não puxou a correia de sua
coleira. Eu me senti orgulhoso com o que havíamos conseguido. Por
várias semanas, Jenny e eu estávamos tentando lhe ensinar alguns
modos e comportamentos sociais básicos, mas ele vinha aprendendo
muito devagar. Era como se vivêssemos com um garanhão selvagem —
tentando lhe ensinar a tomar chá numa xícara de porcelana fina. Eu
me lembrei de São Shaun e quão rapidamente eu, um mero garoto de
dez anos de idade, pude lhe ensinar tudo que ele precisava saber para
ser um grande cão. Eu me perguntava o que eu estava fazendo de errado
desta vez.
Mas nosso exercício de pega-varetas deu-nos uma ponta de
esperança: — Sabe — eu disse a Jenny —, realmente acho que ele está
começando a entender.
Ela olhou para ele, saltitando ao nosso lado. Ele estava
encharcado e coberto de areia, espumando pela boca, segurando ainda a
vareta conquistada a duras penas entre os dentes.
— Eu não teria tanta certeza disso — ela replicou...
— Este cachorro tem um parafuso solto.
Definitivamente, nós precisávamos de ajuda profissional.
Nosso veterinário recomendou-nos um clube de treinamento de
cães na cidade que oferecia aulas de adestramento básicas às terças-feiras
à noite, no estacionamento por trás da loja de armamentos. Os
professores eram voluntários do clube, dedicados amadores que muito
provavelmente já haviam aprimorado ao máximo o comportamento de
seus próprios cães. O curso era de oito aulas e custava cinqüenta dólares,
que achamos ser de graça, especial-mente considerando que Marley
destruía um sapato de cinqüenta dólares em trinta segundos. E o clube
também garantia que, após a graduação, estaríamos levando uma perfeita
Lassie de volta para casa. Na matrícula, conhecemos; mulher que iria
ministrar as aulas a Marley. Era uma treinadora severa, que não admitia
bobagens, e que defendia a teoria de que não há cães incorrigíveis, apenas
donos sem sorte ou força de vontade suficiente.
A primeira aula pareceu provar o seu ponto de vista. Antes de
sairmos do carro, Marley viu os outros cães reunidos com seus donos do
outro lado da pista de automóveis. Uma festa! Ele saltou para fora do carro
a jato por cima de nós, arrastando a guia atrás dele. Ele foi de cão em cão,
cheirando-os, soltando pipi, babando para todos os lados. Para Marley, era
um festival de cheiros — tantos cachorros para cheirar num espaço tão
curto de tempo — e ele estava curtindo aquele momento, tomando
cuidado para se manter à minha frente enquanto eu corria atrás dele.
Toda vez que eu estava a ponto de pegá-lo, ele se adiantava mais alguns
metros. Finalmente, eu o cerquei e dei um salto à frente, aterrissando
com os dois pés sobre a guia dele. Isso fez com que ele parasse tão de
repente que, por um momento, pensei que tivesse quebrado o seu pescoço.
Ele caiu de costas, virou-se de lado e olhou para cima para mim com uma
expressão serena de quem tinha conseguido fazer o que queria.
Enquanto isso, a instrutora nos encarava com ar de desaprovação
como se eu tivesse resolvido dançar pelado na frente de todo mundo.
— Tome seu lugar, por favor — ela disse, seca.
Quando viu Jenny e eu puxando Marley até a sua posição, ela
acrescentou:
— Vocês vão ter de decidir qual de vocês dois irá treiná-lo.
Comecei a explicar que ambos queriam participar para que
cada um pudesse trabalhar com ele em casa, mas ela me cortou,
dizendo:
— Um cão — ela disse, de forma contundente — só pode
obedecer a um mestre.
Dei início a um protesto, mas ela me calou com o olhar —
suponho que o mesmo que usava para intimidar seus cães —, e passei
para o lado com o rabo entre as pernas, deixando Mestre Jenny no
comando.
Provavelmente, isso foi um erro. Marley já era bem mais forte do
que Jenny e ele sabia disso. A Sra. Dominatrix havia acabado de
iniciar sua introdução sobre a importância de estabelecer o domínio
sobre nossos animais de estimação, quando Marley decidiu que uma
poodle do outro lado da quadra merecia ser olhada mais de perto. Ele
arrancou arrastando Jenny atrás dele.
Todos os outros cachorros estavam sentados placidamente ao
lado de seus donos com a distância de três metros entre eles,
aguardando as instruções. Jenny estava lutando valentemente para
fincar os pés no chão e fazer Marley parar, mas ele seguiu em frente,
arrastando-a para o outro lado do estacionamento atrás do traseiro
daquela poodle. Minha mulher parecia uma esquiadora aquática
puxada por uma lancha de 24 pés. Todo mundo arregalou os olhos.
Alguns se afastaram, dando passagem. Eu cobri os meus.
Marley dispensava apresentações formais. Ele aterrissou na
poodle e imediatamente enfiou o nariz entre suas patas traseiras.
Imaginei que seria a forma masculina canina de perguntar:
— Você vem sempre aqui?
Depois que Marley examinou inteiramente a poodle, Jenny pôde
puxá-lo de volta para o seu lugar.
A Sra. Dominatrix anunciou, calmamente:
— Isto, turma, é um exemplo de cachorro a quem foi permitido
imaginar que ele era o macho mais importante de sua ninhada. Neste
momento, é ele quem comanda.
Como se quisesse provar o ponto da instrutora, Marley começou a
perseguir o seu próprio rabo, girando como um doido, as mandíbulas
estalando no ar, enrolando a guia em volta das pernas de Jenny até
imobilizá-la completamente. Tive pena dela, mas agradeci não estar em
seu lugar.
A instrutora continuou a aula, passando a ensinar os comandos
para sentar e deitar. Jenny ordenava:
— Sente!
E Marley pulava em cima dela e colocava as patas sobre seus
ombros. Ela empurrava seu traseiro para baixo e ele se virava para
receber um carinho na barriga. Ela tentava arrastá-lo de volta para o
lugar dele e ele agarrava a guia entre seus dentes, balançando sua
cabeça de um lado para outro como se estivesse duelando com uma
sucuri. Era horrível ficar olhando. Em determinado momento, abri os
olhos e vi Jenny deitada, de cara no asfalto e Marley por cima dela,
resfolegando alegremente. Mais tarde, ela me contou que estava
tentando mostrar a ele o comando para deitar.
No final da aula, quando Jenny e Marley vieram até onde eu
estava, a Sra. Dominatrix nos interceptou:
— Vocês realmente precisam controlar este animal — ela disse,
suspirando.
Bem, obrigado por este valioso conselho. E em pensar que
tínhamos nos matriculado apenas para contribuir com o lado cômico
da aula. Nenhum de nós disse nenhuma palavra. Apenas retornamos ao
carro nos sentindo humilhados, e dirigimos para casa em silêncio,
apenas com Marley arfando alto enquanto baixava a adrenalina da
experiência de sua primeira aula de adestramento.
Finalmente, eu disse:
— Uma coisa não se pode negar: ele adora escola.
Na semana seguinte, Marley e eu voltamos, desta vez sem Jenny.
Quando sugeri a ela que eu seria o elemento mais próximo de um cão
macho em casa, ela alegremente abriu mão de seu breve título de
mestre e comandante, e jurou que nunca mais iria dar as caras em
público novamente. Antes de sair de casa, virei Marley de costas no
chão e falei baixo no tom de voz mais sério possível:
— Sou eu quem manda! Não é você quem manda! Eu sou o
chefe! Entendeu, Cão-alfa?
Ele bateu o rabo no chão e tentou morder meus pulsos.
A aula daquela noite ensinava a andar junto, uma das minhas
especialidades. Eu estava cansado de lutar com Marley a cada passo.
Ele já havia derrubado Jenny uma vez, quando disparou atrás de um
gato, machucando seus joelhos. Já era hora de ele aprender a caminhar
tranqüila-mente ao nosso lado. Forcei-o até chegar ao nosso lugar na
pista, evitando que saltasse sobre cada um dos cachorros pelos quais ele
passava...Como instruído, fiz Marley se levantar e retirei o enforcador de
sua boca. Depois, de acordo com as instruções, pressionei seu traseiro
para que se sentasse e fiquei de pé ao lado dele, com minha perna
esquerda encostada no seu ombro direito. Depois de contar até três, eu
deveria dizer:
— Marley, junto!
E dar um passo com a perna esquerda — nunca a direita. Se ele se
afastasse, evidente, uma série de pequenas correções — alguns leves
puxões na guia — o trariam de volta à linha.
— Turma, quando eu contar três — exclamou a Sra. Dominatrix.
Marley se contorcia de emoção. O objeto estranho e brilhante em
torno do seu pescoço tinha tomado sua atenção.
— Um... Dois... Três!
— Marley, junto! — ordenei.
Assim que dei o primeiro passo, ele disparou como um jato de
carreira. Puxei a guia com força e ele tossiu alto assim que o enforcador
apertou sua garganta. Ele recuou por um momento, mas assim que a
corrente afrouxou, ele se esqueceu do momento de sufocação, anulando
a lição que fora ensinada. Ele avançou novamente. Puxei a guia de novo
e mais uma vez ele sufocou. Continuamos assim por toda a extensão do
estacionamento. Marley arremetendo à frente, eu puxando-o para trás,
cada vez com mais força. Ele tossia e arfava; eu gemia e suava.
— Controle seu cachorro! — a Sra. Dominatrix gritava.
Eu tentava, com todas as minhas forças, mas ele não estava
aprendendo a lição, e eu temi que Marley acabaria sendo estrangulado antes
de perceber o que deveria fazer. Enquanto isso, os outros cães caminhavam
ao lado de seus donos, atendendo a correções menores como a Sra.
Dominatrix disse que eles fariam.
— Pelo amor de Deus, Marley — eu sussurrei. — O orgulho de
nossa família está em jogo aqui!
A instrutora fez a turma formar mais uma fila e tentar outra vez.
Nova-mente, Marley atravessou a pista arremetendo como um maníaco,
olhos esbugalhados, estrangulando-se ao longo do caminho. Na outra
ponta, a Sra. Dominatrix apresentou-nos para a turma como um
exemplo de como não se deveria fazer um cão ficar junto.
— Aqui — ela disse, sem paciência, estendendo a mão. — Deixeme
mostrar a você.
Eu lhe passei a guia e ela, de modo ultra-eficaz, conduziu Marley à
posição correta, puxando o enforcador ao lhe dar a ordem para se sentar.
Ele se sentou nas patas traseiras, olhando para ela, ansioso. Maldito.
Com uma puxada rápida da guia, a Sra. Dominatrix saiu andando
com ele. Mas quase instantaneamente ele disparou à frente, como se
estivesse puxando o trenó de Papai Noel. A instrutora corrigiu-o com
firmeza, tirando seu equilíbrio. Ele tropeçou, engasgou, e lançou-se à
frente de novo. Parecia que iria arrancar o braço dela fora. Eu
deveria estar envergonhado, mas senti uma estranha sensação de
prazer que vem junto com a vingança. Ela não estava fazendo melhor
do que eu. Meus colegas tentavam segurar o riso, e eu me refestelava,
um pouco orgulhoso: Vêem? Meu cachorro é ruim com qualquer
pessoa, não somente comigo!
Agora que eu não era mais o único que tinha sido feito de bobo,
eu precisava admitir, a cena era um bocado hilária. Ao chegar ao fim
do estacionamento, eles viraram e retornaram claudicando em nossa
direção; a Sra. Dominatrix com a cara fechada de raiva, e Marley mais
feliz impossível. Ela puxou a guia com fúria e Marley, babando até não
poder mais, puxava de volta com ainda mais força, visivelmente
adorando esse novo e excelente cabo-de-guerra que a professora
resolveu jogar. Quando me viu, pisou fundo. Com um novo impulso de
adrenalina quase que sobrenatural, avançou em minha direção,
forçando-a a correr para não ser arrastada o resto do caminho. Marley só
parou ao se jogar em cima de mim com sua costumeira alegria
esfuziante. A Sra. Dominatrix me fulminou com o olhar como se eu
tivesse cruzado uma linha invisível sem retorno. Marley debochara de
tudo que ela ensinara sobre cachorros e disciplina: ele a havia
humilhado publicamente. Ela me devolveu a guia e virou-se para a
turma como se o pequeno e infeliz incidente não tivesse acontecido, e
disse:
— Muito bem, turma, quando eu contar três...
Quando a aula terminou, ela me perguntou se eu poderia ficar um
pouco mais. Esperei com Marley, enquanto ela respondia pacientemente
às perguntas dos outros alunos da turma. Depois que o ultimo saiu, ela
se virou para mim e, num tom de voz conciliatório totalmente inédito
para mim, disse:
— Acho que seu cachorro ainda está muito novo para ser
adestrado.
— Ele é um problema, não é? — repliquei, sentindo um pouco de
solidariedade da parte dela, já que havíamos passado pela mesma
experiência vexatória.
— Ele simplesmente ainda não está preparado para ter as aulas —
ela respondeu. — Ainda precisa crescer mais um pouco. Comecei a
perceber o que ela queria dizer com aquilo.
— Você está tentando me dizer...
— Ele distrai os outros cachorros.
— ...que você está...
— Ele é agitado demais.
— ...nos expulsando da turma?
— Você poderá trazê-lo de volta daqui a seis ou oito meses.
— Então, você está nos expulsando da turma?
— Eu lhe devolverei o valor integral da matrícula, sem problema.
— Você está nos expulsando.
— Sim — ela concordou, finalmente —, estou expulsando vocês
da turma...
Nossos amigos que tinham crianças pequenas e vinham nos
visitar, comentavam:
— A casa de vocês já é à prova de bebês!
Marley não sacudia seu rabo. Ele sacudia o seu corpo todo,
começando pelos ombros indo até o fim do outro lado. Ele era a versão
canina de Slinky. Poderíamos jurar que não havia ossos dentro dele,
apenas um único longo músculo elástico. Jenny começou a chamá-lo de
Sr. Terremoto.
E em nenhum outro momento ele se sacudia mais do que quando
tinha alguma coisa em sua boca. Sua reação em qualquer situação era a
mesma: agarrar o sapato, travesseiro ou lápis mais próximo — realmente
qualquer coisa servia — e sair correndo com ela. Uma voz em sua
cabeça deveria lhe sussurrar: “Vá em frente! Pegue isto! Babe bastante
em cima dele! Agora, saia correndo!”.
Alguns dos objetos que ele agarrava eram pequenos o suficiente
para serem escondidos, e isso o agradava muito — ele acreditava que
ninguém perceberia. Mas Marley nunca iria ser um bom jogador de
pôquer. Quando queria ocultar alguma coisa, não conseguia disfarçar
seu contentamento. Ele era sempre muito ativo, mas havia momentos
em que ele explodia num surto hiperativo, como se um espírito
brincalhão tivesse puxado o seu rabo. Seu corpo se contorcia, sua
cabeça balançava de um lado para outro, seu traseiro se movia numa
dança extática. Nós chamávamos isso de “Marley Mambo”.
— Muito bem, o que foi que você pegou desta vez? — eu dizia e,
ao me aproximar, ele começava a bater em retirada, correndo em
desenfreada carreira pela sala, sacudindo os quadris, a cabeça subindo e
descendo como um brinquedo de parque de diversões, tão exultante com
seu prêmio proibido que ele mal conseguia se conter. Quando
finalmente eu conseguia cercá-lo e o forçava a abrir a boca, eu nunca
deixava de encontrar alguma coisa. Sempre havia algo que ele pegara no
lixo ou do chão ou, à medida que ele crescia e ficava mais alto, de cima
da mesa de jantar. Guardanapos, lenços de papel usados, recibos de
supermercado, rolhas, clipes de papel, peças de xadrez, tampas de
garrafa — parecia uma arca inesgotável. Certo dia, abri suas mandíbulas
e encontrei meu contracheque grudado no céu da boca...
Dentro de algumas semanas, mal conseguíamos nos lembrar como era
a vida antes de nosso novo morador chegar. Rapidamente, entramos numa
rotina. Eu começava todas as manhãs, antes de tomar minha primeira
xícara de café, levando-o para passear na praia e voltava. Depois do café
da manhã, antes de tomar uma ducha, eu revirava o quintal com uma pá,
enterrando suas “minas” terrestres na areia no fundo do terreno. Jenny
saía para o trabalho antes das nove horas, e eu raramente saía de casa
antes das dez, primeiro fechando Marley na garagem com uma vasilha de
água fresca, uma pilha de brinquedos, e minha sorridente recomendação
para ele “ser um bom menino”. Ao meio-dia e meia, Jenny voltava para
casa para almoçar, quando ela lhe servia o almoço e jogava uma bola para
ele no quintal até ele ficar ofegante. Nas primeiras semanas, ela também
voltava para casa rapidamente no meio da tarde para deixá-lo sair para fazer
suas necessidades. Na maior parte das vezes, depois do jantar,
caminhávamos com ele até a costa, onde passeávamos ao longo da
Intracoastal, enquanto os iates de Palm Beach vagavam sob o fulgor do pôrdo-
sol.
Passear é provavelmente o termo errado. Marley passeava como
uma locomotiva desenfreada. Ele se lançava à frente, puxando a coleira
com todas as forças, engasgando enquanto nos arrastava atrás dele. Nós
puxávamos a coleira de volta e ele nos puxava adiante. Nós puxávamos
para trás, ele puxava para a frente, tossindo como um fumante
inveterado devido à coleira apertando seu pescoço. Ele virava para a
esquerda e para a direita, avançando sobre toda caixa de correio ou
arbusto, farejando, arfando e mijando sem parar inteiramente, em geral,
mijando mais em si mesmo do que no lugar que escolhera. Ele andava
em círculos à nossa volta, enrascando a coleira em nossos tornozelos
antes de voltar à carga novamente, quase nos derrubando. Quando
alguém se aproximava com outro cachorro, Marley pulava em cima deles
todo alegre, abaixando as patas traseiras ao chegar à extensão máxima de
sua coleira, morrendo de vontade de fazer novas amizades.
— Ele parece realmente amar a vida — comentou um dos donos
de cachorro que encontramos pelo caminho, e isso disse tudo...
Nosso filhote sofria de um caso de desordem hiperativa com déficit de
atenção.
Mesmo assim, apesar de todos os seus ataques infantis, Marley
desempenhava um papel importante em nosso lar e em nosso
relacionamento. Com sua truculência, ele mostrava a Jenny que ela
tinha um lado maternal. Ela havia cuidado dele por várias semanas, e
ainda não o havia esganado. Muito pelo contrário, ele estava
florescendo. Nós brincávamos que talvez devêssemos começar a
alimentá-lo menos para estancar seu crescimento e reduzir o seu grau
de energia.
A transformação de Jenny de uma fria assassina de plantas à
devotada mãe de cachorro continuava a me abismar. Acho que ela também
se abismava um pouco com isso. Ela fazia isso naturalmente. Um dia,
Marley começou a ter violentas ânsias de vômito. Antes que eu percebesse
que havia realmente um problema, Jenny estava junto dele. Ela o pegou,
abriu sua boca com uma das mãos e, com a outra, puxou do fundo da
garganta um pedaço de celofane encharcado de saliva. Tudo num dia.
Marley tossiu mais uma vez, bateu o rabo contra a parede, e olhou para ela
como se dissesse: “Vamos fazer isso de novo?”.
A medida que nos familiarizávamos com o novo membro de nossa
família, sentimo-nos mais a vontade para falar sobre aumentá-la de outros
modos. Algumas semanas depois de trazer Marley para casa, decidimos
parar de usar métodos anticoncepcionais. Não quer dizer que decidimos que
Jenny iria engravidar, o que seria corajoso demais para pessoas que haviam
dedicado suas vidas à mais completa indecisão sobre esse tipo de coisa. Ou
melhor, resolvemos reconsiderar o assunto, apenas decidindo parar de não
querer que ela engravidasse. Era uma lógica confusa, nós admitimos, mas,
de alguma forma, fez com que nos sentíssemos melhor. Sem pressão.
Nenhuminha. Não estávamos tentando ter um filho; estávamos apenas
deixando isso acontecer naturalmente. Deixando que a natureza se
encarregasse. Que será, será e todo esse tipo de coisa.
Sinceramente, morríamos de medo disso. Tínhamos diversos
amigos que tentaram por vários meses, até mesmo anos, sem
sucesso e que lentamente tornaram público o seu desespero
pessoal. Nos jantares, conversavam obsessivamente sobre consultas
médicas, contagens de espermatozóides e ciclos menstruais
controlados, gerando um mal-estar para todos à mesa. Ou seja, o que
se diz numa hora dessas? “Acho que a contagem dos seus
espermatozóides está ótima!” A conversa se tornava insuportável.
Sentíamo-nos apavorados em acabar como eles.
Jenny havia sorrido vários ataques de endometriose antes de nos
casarmos e havia se submetido a uma laparoscopia para remover o
excesso de tecido endométrico de suas trompas de falópio, o que pode
provocar infertilidade. E ainda mais perturbador era um pequeno segredo
nosso. Cegos de paixão, no início do nosso namoro, quando o desejo
solapava todo bom senso que tivéssemos, pusemos todas as precauções de
lado amontoadas com nossas roupas e fizemos amor sem nos preocupar,
sem usar qualquer método contraceptivo. Não apenas uma, mas várias
vezes. Foi muito cretino de nossa parte e, pensando bem, hoje,
deveríamos beijar o chão em agradecimento por termos escapado
milagrosamente de uma gravidez indesejada. Em vez disso, poderíamos
pensar: “O que há de errado conosco? Nenhum casal normal poderia ter
transado daquela forma sem proteção alguma e escapado ileso”.
Estávamos convencidos de que conceber uma criança não iria ser fácil.
Ao contrário dos nossos amigos que anunciavam seus planos para
tentar engravidar, permanecemos em silêncio. Jenny iria simplesmente
deixar sua receita de pílulas anticoncepcionais dentro do armário de
remédios e esquecê-la ali. Se engravidasse, ótimo. Se não engravidasse,
bem, não estávamos na realidade tentando fazer nada disso agora, não
é?...Algumas semanas depois, estávamos deitados na cama lendo,
quando Jenny fechou seu livro e disse:
— Vai ver que não é nada.
— O que não é nada? — perguntei, absorto, sem desviar meus
olhos do meu livro.
— Minha menstruação está atrasada.
Com isto, ela conseguiu chamar toda a minha atenção:
— Sua menstruação? Está...?
Eu me virei para encará-la.
— Isso acontece algumas vezes. Mas já faz mais de uma semana.
E estou me sentindo esquisita também.
— Esquisita, como?
— Como se eu estivesse constipada ou algo do gênero. Eu bebi um
gole de vinho no jantar outro dia e eu achei que fosse pôr tudo para
fora.
— Você nunca fez isso.
— Só de pensar em bebida alcoólica fico enjoada.
Eu nem ousei dizer isso a ela, mas ela andava um bocado mal
humorada ultimamente.
— Você acha que...? — comecei a perguntar.
— Eu não sei. O que você acha?
— Como é que eu vou saber?
— Eu não disse nada — respondeu Jenny. — Vai saber... sabe
como é? Para não dar azar.
Neste momento, eu entendi quão importante isso era para ela — e
para mim também. De alguma forma, a paternidade havia tomado conta
de nós: estávamos prontos para ter nosso bebê. Ficamos deitados ali, um
ao lado do outro, por um longo tempo, sem dizer nada, olhando para o
teto.
— Não vamos conseguir dormir assim — eu disse, finalmente.
— Esse suspense está me matando — ela admitiu.
— Venha, vista-se — eu disse. — Vamos a uma farmácia comprar
um teste de gravidez.
Vestimos shorts e camiseta e saímos pela porta da frente, Marley
correndo na nossa frente, felicíssimo com a perspectiva de um passeio
de carro tarde da noite. Ele se erguia nas patas traseiras no banco
traseiro do nosso pequeno Toyota Tercel, saltando para cima e para
baixo, sacudindo, babando, arfando, tomado de ansiedade, esperando o
momento em que eu abrisse a porta traseira do carro.
— Veja só, até parece que ele é o pai — brinquei.
Quando abri a porta, ele saltou no banco de trás com tanta
vontade que voou até bater a cabeça na janela do outro lado,
aparentemente sem se machucar.
A farmácia ficava aberta até a meia-noite, e eu esperei dentro do
carro com Marley, enquanto Jenny foi correndo comprar o teste. Há
certas coisas que homens não devem comprar numa loja e um teste de
gravidez em farmácia é uma delas. Marley andava de um lado para o
outro no banco de trás, choramingando, os olhos grudados na porta de
entrada da farmácia. Como era de sua natureza toda vez que ficava
ansioso, o que acontecia quase o tempo todo, ele arfava e salivava
muito.
— Pelo amor de Deus, sossegue! — eu disse a ele. — O que você
acha que ela vai fazer? Fugir pela porta dos fundos?
Ele respondeu sacudindo-se inteiro, atirando baba de cachorro e
pêlos soltos em cima de mim. Como estávamos habituados com o
comportamento de Marley dentro do carro, tínhamos sempre uma
toalha de banho de emergência no banco da frente, e eu a usei para me
secar e limpar o interior do carro.
— Sossegue! — eu exclamei. — Tenho certeza de que ela vai
voltar.
Cinco minutos depois, Jenny retornava com uma pequena sacola
na mão. Ao sair do estacionamento, Marley encaixou os ombros entre
os assentos dos bancos dianteiros, balançando suas patas dianteiras
sobre o console central, com o nariz tocando o espelho retrovisor. Cada
curva o derrubava, de barriga, sobre o freio de mão. E a cada tombo,
imperturbado e mais feliz do que nunca, ele tornava a se postar no
mesmo lugar.
Alguns minutos mais tarde, estávamos de novo em casa, no
banheiro, com o teste de gravidez, que custou US$ 8.99, aberto ao lado
da pia. Eu li as instruções em voz alta:
— Muito bem — eu disse —, aqui diz que ele tem um acerto em
99% dos casos. A primeira coisa que você vai ter de fazer é pipi no
copinho.
O passo seguinte era mergulhar a fita plástica do teste na urina e
depois em um pequeno tubo com uma solução que vinha junto com o
teste.
— Espere cinco minutos — eu disse. — Depois colocamos na
segunda solução por quinze minutos. Se ficar azul, você está
oficialmente grávida, querida!
Marcamos os primeiros cinco minutos. Depois Jenny colocou a
fita no segundo tubo e disse:
— Eu não agüento ficar aqui esperando.
Fomos para a sala e começamos a conversar sobre qualquer coisa,
fazendo de conta que estávamos esperando a água da chaleira ferver.
— Você viu o jogo dos Dolphins? — eu arrisquei, mas meu
coração se acelerara, e eu sentia um frio no estômago.
Se o resultado do teste fosse positivo, puxa vida, nossas vidas
iriam mudar para sempre. Se fosse negativo, Jenny iria ficar
decepcionada. Eu estava começando a perceber que eu ficaria também.
Depois do que pareceu uma eternidade, o temporizador tocou.
— Aí vamos nós — eu disse. — Não importa qual seja o
resultado, saiba que eu amo você.
Fui até o banheiro e pesquei a fita do teste do tubo. Sem dúvida,
estava azul. Azul como o fundo do mar. Um azul-marinho escuro, denso,
brilhante. Um tom de azul que não poderia ser confundido com nenhuma
outra cor.
— Parabéns, querida! — eu disse.
— Oh, meu Deus! — foi tudo que ela conseguiu dizer, e se jogou
em meus braços.
Abraçados ali, de olhos fechados, junto à pia do banheiro, aos
poucos me dei conta de algo se mexendo em torno dos nossos pés.
Olhei para baixo e lá estava Marley, sacudindo-se, balançando a
cabeça, abanando o rabo, batendo contra a porta do closet com tanta
força que poderia parti-la. Quando me abaixei para acariciá-lo, ele
escapuliu. Oh-oh. Era o Marley Mambo e isso significava apenas uma
coisa.
— O que você tem aí desta vez? — perguntei, e comecei a
persegui-lo.
Ele correu para a sala de visitas, escapulindo por pouco. Quando
finalmente consegui segurá-lo e abri sua bocarra, de cara, não vi nada.
Depois, no fundo de sua língua, quase descendo pela garganta, vi
alguma coisa. Era algo longo, fino e achatado. E era azul como o fundo
do mar. Pincei sua garganta e puxei a fita de teste de gravidez positiva
para fora.
— Desculpe desapontá-lo, camarada — eu disse —, mas isto eu
vou guardar em meu livro de recordações...
A gravidez fez muito bem à Jenny. Ela se levantava pela manhã
para se exercitar e caminhar com Marley. Ela preparava refeições
nutritivas e saudáveis, cheias de legumes e frutas frescas. Ela eliminou a
cafeína e refrigerantes dietéticos e, claro, qualquer bebida alcoólica, não
me permitindo nem mesmo colocar uma colher de sopa de xerez para
temperar a comida.
Ela jurou manter segredo sobre a gravidez até que estivéssemos
certeza de que o feto estivesse firme sem risco de aborto espontâneo,
mas nem ela nem eu conseguimos disfarçar. Estávamos tão
entusiasmados que confidenciamos a novidade a todos de nossos
parentes e amigos, pedindo segredo, até que não fosse mais segredo.
Primeiro contamos aos nossos pais, depois aos nossos irmãos, então aos
amigos mais íntimos, em seguida aos nossos colegas de trabalho e
vizinhos. Com dez semanas, a barriga de Jenny começou a arredondarse
de leve. A gravidez parecia mais palpável. Por que não dividir nossa
alegria com o resto do mundo? Quando chegou o dia do exame e de
ultra-som de Jenny, era como se tivéssemos colocado um anúncio num
outdoor: John e Jenny estão esperando um bebê.
No dia do exame médico, não fui trabalhar pela manhã e, como foi
pedido, trouxe uma fita de vídeo virgem para podermos registrar as
primeiras imagens granuladas do nosso filho. A consulta seria uma
sessão de check-up e de instruções. Iríamos conversar com uma
obstetra que responderia a todas as nossas perguntas, medir a barriga
de Jenny, ouvir os batimentos cardíacos do bebê e, claro, mostrar-nos
suas feições dentro do seu útero.
Chegamos às nove da manhã, ansiosos. A obstetra, uma senhora
gentil de meia-idade, com sotaque britânico, conduziu-nos a um
pequeno consultório de exames e perguntou na mesma hora:
— Gostariam de ouvir os batimentos do coração do bebê?
Claro que sim, nós respondemos. Ouvimos atentamente enquanto
ela passava um tipo de microfone adaptado a um pequeno alto-falante
sobre a barriga de Jenny. Ficamos em silêncio, o sorriso congelado em
nosso rosto, auscultando para ouvir batidas abafadas, mas só havia
estática.
A obstetra disse que isso era comum.
— Depende da posição do bebê dentro do útero. Às vezes, não se
consegue ouvir nada. Pode ser que ainda seja cedo.
Ela sugeriu passarmos para o ultra-som.
— Vamos dar uma olhada no seu bebê — ela disse num tom
faceiro.
— Nossa primeira visão do bebê Grogie — disse Jenny, sorrindo
para mim.
A obstetra nos levou até a sala de ultra-som e deitou Jenny
sobre a mesa de exame com uma tela de monitor ao lado dela.
— Eu trouxe a fita — eu disse, agitando-a na frente dela.
— Segure-a por enquanto — respondeu a obstetra, puxando a
blusa de Jenny e começando a passar um instrumento sobre a barriga
dela que tinha a mesma dimensão e formato que um taco de hóquei.
Olhamos para o monitor do computador e vimos uma massa cinza
indefinida.
— Humm, não dá para ver nada — disse ela, sem alterar o tom de
voz.
— Vamos tentar um ultra-som transvaginal. Dá para pegar muito
mais detalhes desse modo.
Ela saiu da sala e voltou alguns momentos depois com outra
enfermeira, uma loura alta com um monograma nas unhas dos dedos das
mãos. Chamava-se Essie, e pediu a Jenny que tirasse a calcinha, e depois
inseriu um sensor coberto de látex em sua vagina. A obstetra estava
certa: a resolução era muito superior à do ultra-som. Ela aproximou a
imagem sobre um aparente invólucro diminuto no meio de um mar
cinzento e, com um clique do mouse, aumentou-o duas vezes e depois
uma terceira vez. Mas apesar de toda resolução, o invólucro parecia
apenas vazio e informe para nós. Onde estavam os bracinhos e
perninhas que os livros de gravidez diziam que estariam formados em
torno de dez semanas? Onde estava a cabecinha? Onde estavam os
batimentos cardíacos? Jenny, com o pescoço esticado olhando para a
tela, ansiosa, perguntou às enfermeiras com um riso um pouco nervoso:
— Há algo aí?
Eu ergui os olhos para ver a expressão de Essie e eu percebi que
não queríamos ouvir a resposta. De repente, entendi por que ela não
respondia enquanto continuava aumentando a imagem. Ela disse a
Jenny num tom de voz controlado:
— Não o que se esperaria ver com dez semanas.
Coloquei minha mão sobre o joelho de Jenny. Continuamos
olhando fixamente para a tela, como se pudéssemos dar-lhe vida.
— Jenny, acho que temos um problema aqui — Essie disse. —
Deixe-me chamar o Dr. Sherman.
Enquanto esperávamos em silêncio, descobri o que as pessoas
querem dizer quando tentam descrever o enxame de gafanhotos que se
abate sobre alguém um pouco antes de desmaiar. Senti o sangue fugir de
minha cabeça e meus ouvidos zuniram. Se eu não me sentar, pensei, vou
cair no chão. Que vergonha seria isso. Minha mulher, tão corajosa,
suportando a notícia estoicamente, enquanto seu marido caía,
inconsciente, as enfermeiras tentando reavivá-lo com sais aromáticos.
Continuei meio sentado na beira da mesa de exames, segurando a mão de
Jenny e passava os dedos em seu pescoço com a outra mão. Seus olhos se
encheram de lágrimas, mas ela segurou o choro.
Dr. Sherman, um homem alto e bem apessoado com expressão
séria, mas afável, confirmou que o feto estava morto.
— Teria sido possível captar os batimentos cardíacos, sem
dúvida — ele disse.
Ele nos disse, com candura, o que já havíamos lido nos livros. Que
uma em cada seis gravidezes resulta em aborto. Que esta era a forma da
natureza dispensar os bebês que fossem mais fracos, mentalmente
comprometidos ou deformados. Aparentemente lembrando-se da
preocupação de Jenny quanto aos exterminadores de pulgas, ele nos
disse que não havia nada que pudéssemos ter feito ou não ter feito. Ele
tocou o rosto de Jenny e aproximou-se dela como se fosse beijá-la:
— Eu sinto muito — ele disse. — Vocês podem tentar
novamente dentro de alguns meses.
Ficamos em silêncio. A fita virgem de vídeo sobre o banco ao
nosso lado de repente pareceu-nos constrangedora, lembrando-nos,
de forma dolorosa do nosso otimismo cego e ingênuo. Eu quis jogá-la
na parede. Quis escondê-la.
Perguntei ao médico:
— O que fazemos agora?
— Temos de remover a placenta — ele disse. — Há alguns anos,
vocês ainda não teriam sabido do aborto até a hemorragia começar.
Ele nos deu a opção de esperar o fim de semana e voltar na
segunda-feira para fazer o procedimento, que seria o mesmo que um
aborto provocado, o feto e a placenta sendo sugados do útero, mas
Jenny queria que isto acabasse logo, e eu também.
— Quanto mais cedo melhor — ela disse...— Você deveria se comportar como um labrador — eu gritei. —
Não como um labrador fugitivo.
Mas o que eu tinha, e meu cão não, era um cérebro evoluído que
excedia pelo menos um pouco a força muscular. Agarrei uma segunda
vareta e comecei a brincar com ela. Segurei-a acima da minha cabeça e
comecei a jogá-la da mão direita para a esquerda. Arremessei-a de um
lado para o outro. Notei que Marley mudou de atitude. De repente, a
vareta em sua boca, que havia apenas alguns minutos era o objeto mais
desejado que ele poderia imaginar sobre a face da Terra, perdeu todo o
interesse. A minha vareta arrebatou toda a sua atenção. Ele se
aproximou devagarzinho, até ficar a poucos centímetros de mim.
— Nasce um bobo todo dia, não é, Marley? — eu ri, passando a
vareta em frente ao focinho dele e observando-o, enquanto ele ficava
vesgo tentando segui-la.
Eu podia ver os miolos funcionando em sua cabeça enquanto ele
pensava como iria pegar a nova vareta sem soltar a primeira. Seu lábio
superior tremia quando ele arriscava agarrar a segunda sem deixar cair a
outra. Logo coloquei minha mão livre firme na ponta da vareta em sua
boca. Eu puxava de um lado e ele puxava de outro, rosnando. Pressionei
a segunda vareta contra seu focinho.
— Você sabe que quer esta outra — sussurrei.
E como! A tentação era forte demais para ele agüentar. Eu podia
sentir sua boca afrouxando em volta da primeira vareta. E então ele se
moveu. Abriu as mandíbulas para tentar pegar a segunda vareta sem
largar a primeira. Num segundo, puxei as duas acima da minha cabeça.
Ele saltou no ar, latindo e girando, obviamente sem entender como uma
estratégia tão ardilosa da parte dele poderia ter ido água abaixo.
— E por isso que eu sou o dono e você é o cachorro — respondi.
E ao dizer isso, ele jogou mais água e areia sobre o meu rosto.
Arremessei uma das varetas na água e ele correu atrás dela,
latindo loucamente enquanto corria. Ele retornou como um oponente
novo, refrescado. Desta vez ele estava sendo mais cauteloso e se recusou
a se aproximar de mim. Ele permaneceu a cerca de dez metros de
distância, com a vareta em sua boca, olhando para seu novo objeto de
desejo, que era apenas o seu velho objeto de desejo, sua primeira
vareta, que estava agora no alto acima da minha cabeça. Eu podia ver
seus miolos funcionando novamente. Ele deveria estar pensando:
“Desta vez, vou só esperar aqui até que ele atire e então ele não terá
nenhuma vareta e eu terei as duas”.
— Você realmente pensa que eu sou burro, não é, cachorro? —
perguntei.
Inclinei-me para trás e com um gemido longo e exagerado,
atirei a vareta com todas as minhas forças. Óbvio que Marley zuniu
para dentro d’água com a sua vareta ainda presa entre os dentes. O
único detalhe era que eu não havia atirado nada. Você imagina que
Marley sacou isso? Ele nadou até longe até perceber que a vareta ainda
estava em minha mão.
— Você é um sádico! — Jenny gritou sentada no banco e eu olhei
para trás e vi que ela estava rindo.
Quando Marley finalmente voltou à praia, ele afundou na areia,
exausto, mas sem soltar a sua vareta. Ele lhe mostrei a minha,
lembrando-lhe o quanto era melhor que a dele, e ordenei:
— Solte!
Eu levantei o meu braço para trás como se fosse jogar, e o bobão
se levantava novamente num instante e se virava para se jogar para a
água novamente.
— Solte! — eu repetia assim que ele voltava.
Foram precisas umas três tentativas, mas finalmente ele fez o que
eu queria. E no instante em que sua vareta caiu na areia, lancei a minha
no ar para que ele pegasse. Repetimos isto diversas vezes e, cada vez, ele
parecia entender um pouco mais claramente o que eu estava fazendo.
Aos poucos, a lição começou a entrar naquela sua cabeça dura. Se ele
me devolvesse a. sua vareta, eu arremessaria uma nova para ele.
— É como uma troca de presentes de amigo oculto — eu disse. —
Você precisar dar para receber um.
Ele saltou e beijou-me com sua boca cheia de areia, que eu
interpretei como um reconhecimento de que havia aprendido a lição.
Quando Jenny e eu caminhávamos de volta para casa, Marley
estava tão cansado que, pela primeira vez, não puxou a correia de sua
coleira. Eu me senti orgulhoso com o que havíamos conseguido. Por
várias semanas, Jenny e eu estávamos tentando lhe ensinar alguns
modos e comportamentos sociais básicos, mas ele vinha aprendendo
muito devagar. Era como se vivêssemos com um garanhão selvagem —
tentando lhe ensinar a tomar chá numa xícara de porcelana fina. Eu
me lembrei de São Shaun e quão rapidamente eu, um mero garoto de
dez anos de idade, pude lhe ensinar tudo que ele precisava saber para
ser um grande cão. Eu me perguntava o que eu estava fazendo de errado
desta vez.
Mas nosso exercício de pega-varetas deu-nos uma ponta de
esperança: — Sabe — eu disse a Jenny —, realmente acho que ele está
começando a entender.
Ela olhou para ele, saltitando ao nosso lado. Ele estava
encharcado e coberto de areia, espumando pela boca, segurando ainda a
vareta conquistada a duras penas entre os dentes.
— Eu não teria tanta certeza disso — ela replicou...
— Este cachorro tem um parafuso solto.
Definitivamente, nós precisávamos de ajuda profissional.
Nosso veterinário recomendou-nos um clube de treinamento de
cães na cidade que oferecia aulas de adestramento básicas às terças-feiras
à noite, no estacionamento por trás da loja de armamentos. Os
professores eram voluntários do clube, dedicados amadores que muito
provavelmente já haviam aprimorado ao máximo o comportamento de
seus próprios cães. O curso era de oito aulas e custava cinqüenta dólares,
que achamos ser de graça, especial-mente considerando que Marley
destruía um sapato de cinqüenta dólares em trinta segundos. E o clube
também garantia que, após a graduação, estaríamos levando uma perfeita
Lassie de volta para casa. Na matrícula, conhecemos; mulher que iria
ministrar as aulas a Marley. Era uma treinadora severa, que não admitia
bobagens, e que defendia a teoria de que não há cães incorrigíveis, apenas
donos sem sorte ou força de vontade suficiente.
A primeira aula pareceu provar o seu ponto de vista. Antes de
sairmos do carro, Marley viu os outros cães reunidos com seus donos do
outro lado da pista de automóveis. Uma festa! Ele saltou para fora do carro
a jato por cima de nós, arrastando a guia atrás dele. Ele foi de cão em cão,
cheirando-os, soltando pipi, babando para todos os lados. Para Marley, era
um festival de cheiros — tantos cachorros para cheirar num espaço tão
curto de tempo — e ele estava curtindo aquele momento, tomando
cuidado para se manter à minha frente enquanto eu corria atrás dele.
Toda vez que eu estava a ponto de pegá-lo, ele se adiantava mais alguns
metros. Finalmente, eu o cerquei e dei um salto à frente, aterrissando
com os dois pés sobre a guia dele. Isso fez com que ele parasse tão de
repente que, por um momento, pensei que tivesse quebrado o seu pescoço.
Ele caiu de costas, virou-se de lado e olhou para cima para mim com uma
expressão serena de quem tinha conseguido fazer o que queria.
Enquanto isso, a instrutora nos encarava com ar de desaprovação
como se eu tivesse resolvido dançar pelado na frente de todo mundo.
— Tome seu lugar, por favor — ela disse, seca.
Quando viu Jenny e eu puxando Marley até a sua posição, ela
acrescentou:
— Vocês vão ter de decidir qual de vocês dois irá treiná-lo.
Comecei a explicar que ambos queriam participar para que
cada um pudesse trabalhar com ele em casa, mas ela me cortou,
dizendo:
— Um cão — ela disse, de forma contundente — só pode
obedecer a um mestre.
Dei início a um protesto, mas ela me calou com o olhar —
suponho que o mesmo que usava para intimidar seus cães —, e passei
para o lado com o rabo entre as pernas, deixando Mestre Jenny no
comando.
Provavelmente, isso foi um erro. Marley já era bem mais forte do
que Jenny e ele sabia disso. A Sra. Dominatrix havia acabado de
iniciar sua introdução sobre a importância de estabelecer o domínio
sobre nossos animais de estimação, quando Marley decidiu que uma
poodle do outro lado da quadra merecia ser olhada mais de perto. Ele
arrancou arrastando Jenny atrás dele.
Todos os outros cachorros estavam sentados placidamente ao
lado de seus donos com a distância de três metros entre eles,
aguardando as instruções. Jenny estava lutando valentemente para
fincar os pés no chão e fazer Marley parar, mas ele seguiu em frente,
arrastando-a para o outro lado do estacionamento atrás do traseiro
daquela poodle. Minha mulher parecia uma esquiadora aquática
puxada por uma lancha de 24 pés. Todo mundo arregalou os olhos.
Alguns se afastaram, dando passagem. Eu cobri os meus.
Marley dispensava apresentações formais. Ele aterrissou na
poodle e imediatamente enfiou o nariz entre suas patas traseiras.
Imaginei que seria a forma masculina canina de perguntar:
— Você vem sempre aqui?
Depois que Marley examinou inteiramente a poodle, Jenny pôde
puxá-lo de volta para o seu lugar.
A Sra. Dominatrix anunciou, calmamente:
— Isto, turma, é um exemplo de cachorro a quem foi permitido
imaginar que ele era o macho mais importante de sua ninhada. Neste
momento, é ele quem comanda.
Como se quisesse provar o ponto da instrutora, Marley começou a
perseguir o seu próprio rabo, girando como um doido, as mandíbulas
estalando no ar, enrolando a guia em volta das pernas de Jenny até
imobilizá-la completamente. Tive pena dela, mas agradeci não estar em
seu lugar.
A instrutora continuou a aula, passando a ensinar os comandos
para sentar e deitar. Jenny ordenava:
— Sente!
E Marley pulava em cima dela e colocava as patas sobre seus
ombros. Ela empurrava seu traseiro para baixo e ele se virava para
receber um carinho na barriga. Ela tentava arrastá-lo de volta para o
lugar dele e ele agarrava a guia entre seus dentes, balançando sua
cabeça de um lado para outro como se estivesse duelando com uma
sucuri. Era horrível ficar olhando. Em determinado momento, abri os
olhos e vi Jenny deitada, de cara no asfalto e Marley por cima dela,
resfolegando alegremente. Mais tarde, ela me contou que estava
tentando mostrar a ele o comando para deitar.
No final da aula, quando Jenny e Marley vieram até onde eu
estava, a Sra. Dominatrix nos interceptou:
— Vocês realmente precisam controlar este animal — ela disse,
suspirando.
Bem, obrigado por este valioso conselho. E em pensar que
tínhamos nos matriculado apenas para contribuir com o lado cômico
da aula. Nenhum de nós disse nenhuma palavra. Apenas retornamos ao
carro nos sentindo humilhados, e dirigimos para casa em silêncio,
apenas com Marley arfando alto enquanto baixava a adrenalina da
experiência de sua primeira aula de adestramento.
Finalmente, eu disse:
— Uma coisa não se pode negar: ele adora escola.
Na semana seguinte, Marley e eu voltamos, desta vez sem Jenny.
Quando sugeri a ela que eu seria o elemento mais próximo de um cão
macho em casa, ela alegremente abriu mão de seu breve título de
mestre e comandante, e jurou que nunca mais iria dar as caras em
público novamente. Antes de sair de casa, virei Marley de costas no
chão e falei baixo no tom de voz mais sério possível:
— Sou eu quem manda! Não é você quem manda! Eu sou o
chefe! Entendeu, Cão-alfa?
Ele bateu o rabo no chão e tentou morder meus pulsos.
A aula daquela noite ensinava a andar junto, uma das minhas
especialidades. Eu estava cansado de lutar com Marley a cada passo.
Ele já havia derrubado Jenny uma vez, quando disparou atrás de um
gato, machucando seus joelhos. Já era hora de ele aprender a caminhar
tranqüila-mente ao nosso lado. Forcei-o até chegar ao nosso lugar na
pista, evitando que saltasse sobre cada um dos cachorros pelos quais ele
passava...Como instruído, fiz Marley se levantar e retirei o enforcador de
sua boca. Depois, de acordo com as instruções, pressionei seu traseiro
para que se sentasse e fiquei de pé ao lado dele, com minha perna
esquerda encostada no seu ombro direito. Depois de contar até três, eu
deveria dizer:
— Marley, junto!
E dar um passo com a perna esquerda — nunca a direita. Se ele se
afastasse, evidente, uma série de pequenas correções — alguns leves
puxões na guia — o trariam de volta à linha.
— Turma, quando eu contar três — exclamou a Sra. Dominatrix.
Marley se contorcia de emoção. O objeto estranho e brilhante em
torno do seu pescoço tinha tomado sua atenção.
— Um... Dois... Três!
— Marley, junto! — ordenei.
Assim que dei o primeiro passo, ele disparou como um jato de
carreira. Puxei a guia com força e ele tossiu alto assim que o enforcador
apertou sua garganta. Ele recuou por um momento, mas assim que a
corrente afrouxou, ele se esqueceu do momento de sufocação, anulando
a lição que fora ensinada. Ele avançou novamente. Puxei a guia de novo
e mais uma vez ele sufocou. Continuamos assim por toda a extensão do
estacionamento. Marley arremetendo à frente, eu puxando-o para trás,
cada vez com mais força. Ele tossia e arfava; eu gemia e suava.
— Controle seu cachorro! — a Sra. Dominatrix gritava.
Eu tentava, com todas as minhas forças, mas ele não estava
aprendendo a lição, e eu temi que Marley acabaria sendo estrangulado antes
de perceber o que deveria fazer. Enquanto isso, os outros cães caminhavam
ao lado de seus donos, atendendo a correções menores como a Sra.
Dominatrix disse que eles fariam.
— Pelo amor de Deus, Marley — eu sussurrei. — O orgulho de
nossa família está em jogo aqui!
A instrutora fez a turma formar mais uma fila e tentar outra vez.
Nova-mente, Marley atravessou a pista arremetendo como um maníaco,
olhos esbugalhados, estrangulando-se ao longo do caminho. Na outra
ponta, a Sra. Dominatrix apresentou-nos para a turma como um
exemplo de como não se deveria fazer um cão ficar junto.
— Aqui — ela disse, sem paciência, estendendo a mão. — Deixeme
mostrar a você.
Eu lhe passei a guia e ela, de modo ultra-eficaz, conduziu Marley à
posição correta, puxando o enforcador ao lhe dar a ordem para se sentar.
Ele se sentou nas patas traseiras, olhando para ela, ansioso. Maldito.
Com uma puxada rápida da guia, a Sra. Dominatrix saiu andando
com ele. Mas quase instantaneamente ele disparou à frente, como se
estivesse puxando o trenó de Papai Noel. A instrutora corrigiu-o com
firmeza, tirando seu equilíbrio. Ele tropeçou, engasgou, e lançou-se à
frente de novo. Parecia que iria arrancar o braço dela fora. Eu
deveria estar envergonhado, mas senti uma estranha sensação de
prazer que vem junto com a vingança. Ela não estava fazendo melhor
do que eu. Meus colegas tentavam segurar o riso, e eu me refestelava,
um pouco orgulhoso: Vêem? Meu cachorro é ruim com qualquer
pessoa, não somente comigo!
Agora que eu não era mais o único que tinha sido feito de bobo,
eu precisava admitir, a cena era um bocado hilária. Ao chegar ao fim
do estacionamento, eles viraram e retornaram claudicando em nossa
direção; a Sra. Dominatrix com a cara fechada de raiva, e Marley mais
feliz impossível. Ela puxou a guia com fúria e Marley, babando até não
poder mais, puxava de volta com ainda mais força, visivelmente
adorando esse novo e excelente cabo-de-guerra que a professora
resolveu jogar. Quando me viu, pisou fundo. Com um novo impulso de
adrenalina quase que sobrenatural, avançou em minha direção,
forçando-a a correr para não ser arrastada o resto do caminho. Marley só
parou ao se jogar em cima de mim com sua costumeira alegria
esfuziante. A Sra. Dominatrix me fulminou com o olhar como se eu
tivesse cruzado uma linha invisível sem retorno. Marley debochara de
tudo que ela ensinara sobre cachorros e disciplina: ele a havia
humilhado publicamente. Ela me devolveu a guia e virou-se para a
turma como se o pequeno e infeliz incidente não tivesse acontecido, e
disse:
— Muito bem, turma, quando eu contar três...
Quando a aula terminou, ela me perguntou se eu poderia ficar um
pouco mais. Esperei com Marley, enquanto ela respondia pacientemente
às perguntas dos outros alunos da turma. Depois que o ultimo saiu, ela
se virou para mim e, num tom de voz conciliatório totalmente inédito
para mim, disse:
— Acho que seu cachorro ainda está muito novo para ser
adestrado.
— Ele é um problema, não é? — repliquei, sentindo um pouco de
solidariedade da parte dela, já que havíamos passado pela mesma
experiência vexatória.
— Ele simplesmente ainda não está preparado para ter as aulas —
ela respondeu. — Ainda precisa crescer mais um pouco. Comecei a
perceber o que ela queria dizer com aquilo.
— Você está tentando me dizer...
— Ele distrai os outros cachorros.
— ...que você está...
— Ele é agitado demais.
— ...nos expulsando da turma?
— Você poderá trazê-lo de volta daqui a seis ou oito meses.
— Então, você está nos expulsando da turma?
— Eu lhe devolverei o valor integral da matrícula, sem problema.
— Você está nos expulsando.
— Sim — ela concordou, finalmente —, estou expulsando vocês
da turma...
um pouco do livro marley & eu:
no 1 cap,primeira coisa do livro,onde ele fala do seu 1 cao:
No verão de 1967, quando eu tinha dez anos de idade, meu pai
cedeu aos meus insistentes pedidos e levou-me para comprar meu próprio
cachorro. Fomos juntos na caminhonete da família até uma boa
distância do centro urbano dentro do Estado de Michigan numa
fazenda dirigida por uma mulher bem roceira e sua mãe muito velha. A
fazenda produzia apenas uma mercadoria — cachorros. Cachorros de
todo tipo, tamanho, idade e temperamento imaginável. Eles possuíam
apenas duas coisas em comum: todos tinham procedência totalmente
indistinta e desconhecida, e poderiam ser levados a qualquer hora para
um novo lar. Estávamos num nicho de cães.
— Pense bem, meu filho — disse papai. — Quem você decidir
levar hoje vai viver com você por muitos e muitos anos.
Rapidamente decidi que os cachorros mais velhos deveriam ficar
com outras pessoas. Imediatamente corri para a gaiola dos filhotes.
— Você vai escolher um que não seja tímido — meu pai caçoou.
— Faça barulho nas grades e veja quais deles não se assustam.
Agarrei as barras da gaiola e bati com força. Cerca de uma dúzia
de filhotes se assustaram e correram para o fundo, caindo uns por
cima dos outros, embolando-se todos. Apenas um não se mexeu. Ele
era dourado com uma mancha branca no peito e avançou sobre a
grade, latindo sem medo. Ele saltou e lambeu os meus dedos
avidamente através das barras de ferro. Foi amor à primeira vista.
Eu o trouxe para casa numa caixa de papelão e chamei-o de
Shaun.Ele era o tipo de cachorro que marca todos os outros cachorros.
Ele aprendeu tudo o que lhe ensinei sem esforço e era naturalmente
bem comportado. Eu poderia jogar um naco de comida no chão que ele
não pegaria até que lhe desse permissão. Ele me atendia quando eu o
chamava e ficava parado quando eu ordenava. Poderíamos deixá-lo
passear à noite, sabendo que retornaria depois de fazer seu passeio.
Nem sempre o deixávamos sozinho, mas poderia ficar em casa por horas
sem companhia, confiantes de que não se machucaria nem mexeria em
nada.
é,esse cãozinho e tão obediente q pode passealo com ele ate sem coleira.agora vamos ver +:
Ele estava comigo quando fumei meu primeiro (e o meu último)
cigarro e quando beijei minha primeira namorada. Ele estava bem do
meu lado no banco da frente quando saí escondido com o carro do meu
irmão mais velho para dar minha primeira volta no quarteirão.
Shaun era espirituoso, porém controlado, amoroso e calmo.
e no 2 cap
Nós éramos jovens. Estávamos apaixonados. Estávamos nos
deleitando naqueles sublimes primeiros dias de casamento quando a
vida parece que não pode se tornar mais maravilhosa. Mal
conseguíamos ficar longe um do outro.
Então, numa noite de janeiro de 1991, eu e minha mulher,
casada há quinze meses comigo, jantamos rapidamente e partimos para
responder a um anúncio classificado do Palm Beach Post.
Por que estávamos fazendo isso, eu não tinha certeza.
...lembrando q estou monstrando um pouco do livro.+:
— Ah... — eu disse, num tom gentil de marido recém-casado,
ainda pisando em ovos. — Há algo que eu deveria saber?
Ela não me respondeu.
— Jen... Jen?
— É a planta — ela disse, finalmente, num tom de voz
ligeiramente desesperado.
— A planta? — perguntei.
— Aquela planta estúpida — ela disse. — Aquela que nós
matamos.
Aquela que nós matamos? Eu não queria mencionar o assunto,
mas, apenas esclarecendo, foi a planta que eu comprei e que ela
matou. E a trouxe de surpresa, certa noite, uma imensa comigoninguém-
pode, com folhas em belos tons bege, amarelo e esmeralda.
— Qual é a ocasião? — ela perguntou.
Mas não havia nenhuma. Eu lhe dei a planta sem nenhum
motivo especial além de querer dizer a ela:
— Nossa, não é ótimo estarmos casados?
Ela adorou tanto o meu gesto quanto a planta e agradeceu-me,
jogando seus braços em volta do meu pescoço e beijando-me nos lábios.
Então, foi imediatamente matar o presente que dei a ela com uma eficiência
fria e assassina. Não que ela quisesse matá-la; como se fosse nada, ela
aguou a coitadinha até morrer. Jenny não tinha grandes pendores para
plantas. Imaginando que todos os seres viventes precisam de água, mas
aparentemente se esquecendo que também precisam de ar, ela se pôs a
encharcar a planta diariamente.
— Tome cuidado para não aguá-la demais — eu a prevenia.de água na coitadinha.
Quanto mais fraca a planta ficava, mais água ela colocava, até
praticamente dissolvê-la.
... +,qd john leva jenny á escolhe o cão:
— Imagino que devam estar loucos para ver os filhotes.
Ela nos conduziu através da cozinha até um quarto de serviço que
fora transformado em berçário. O chão estava coberto de folhas de jornal
e, num canto estava uma caixa baixa forrada com antigas toalhas de
praia. Mas mal reparamos nesses detalhes. Como poderíamos, ao ver
nove filhotes amarelos minúsculos, um subindo por cima do outro,
tentando ver quem eram os novos estranhos que apareciam ali? Jenny
suspendeu sua respiração.
— Meu Deus — ela disse. — Acho que nunca vi algo tão lindinho
em toda a minha vida.
Sentamo-nos no chão e deixamos os filhotes subir por cima de nós,...
A ninhada tinha cinco fêmeas e quatro delas já estavam
reservadas e quatro machos. Lori estava pedindo US$ 400 pela última
fêmea e US$ 375 pelos machos. Um dos machos parecia ter-se
apaixonado por nós. Ele era o mais palhaço de todos e avançava sobre
nós, pulando no nosso colo e agarrando-nos com as patas para escalar
pela roupa e lamber nosso rosto. Ele mordiscava nossos dedos com
dentes de leite afiados e andava trôpego em círculos à nossa volta com
patas redondas gigantescas, totalmente fora de proporção quanto ao
restante do seu corpo.
— Este vocês podem levar por US$ 350 — disse a criadora.
Jenny é uma caçadora de barganhas que traz para casa qualquer
coisa que sequer queiramos ou precisemos apenas porque estava sendo
vendida a um preço atraente demais para ser deixada para trás.
— Sei que você não pratica golfe — ela me disse um dia, puxando
um conjunto de tacos usados do carro. — Mas você não acreditaria no
preço que paguei por eles.
Agora eu via seus olhos se iluminarem.
— Ah, amorzinho — ela arrulhou. — Estezinho está a preço de
liquidação!
Eu tive de admitir que ele era adorável. E elétrico, também. Antes
que eu percebesse o que ele iria fazer, o danadinho havia mastigado
metade da correia do meu relógio.
— Temos de fazer o teste do medo — eu disse.
Eu havia contado a Jenny inúmeras vezes a história de como
escolhera São Shaun quando era menino, e que meu pai me ensinara a
fazer um movimento brusco ou um barulho bem alto para distinguir os
tímidos dos mais confiantes. Sentada entre os filhotes, ela revirou os olhos
como sempre fazia toda vez que se deparava com um comportamento
estranho da família Grogan.
— E sério — eu disse —, isso funciona.
Eu me levantei, me afastei dos filhotes, então me virei
rapidamente de novo, avançando de repente na direção deles com um
passo largo. Bati o pé e exclamei:
— Ei!
Nenhum deles parecia ter-se abalado com as minhas contorções.
Apenas um pulou, encarando-me de frente. Era o Cão de Liquidação. Ele
avançou sobre mim, entrando entre meus calcanhares e agarrando os
meus cadarços como se fossem perigosos inimigos que precisassem ser
destruídos.
— Creio que este seja o escolhido pelo destino — disse Jenny.
— Você acha? — eu perguntei, pegando-o e segurando-o numa
das mãos diante do rosto, estudando suas feições.
Ele olhou para mim com olhos marrons chorosos de cortar o
coração e então lambiscou o meu nariz. Eu o coloquei nos braços de
Jenny e ele repetiu o gesto.
— Com certeza ele parece gostar de nós — eu disse.
E assim foi feito. Entregamos um cheque de US$ 350 à Lori e ela
nos disse que poderíamos voltar para levar nosso Cão de Liquidação
para casa em mais três semanas, quando ele teria oito semanas de idade
e estivesse desmamado. Agradecemos a ela, fizemos um último carinho
em Lily e nos despedimos.
... pra escolhe o nome dele:— Chelsea? — eu perguntei. — Esse é um nome tão sofisticado.
Nenhum cão macho teria esse nome.
— Como se ele se importasse com o próprio nome — Jenny
replicou.
— Caçador — eu disse. — Caçador é perfeito.
— Caçador? Você está brincando, não é? O que deu em você, um
ataque de machismo esportivo? E um nome masculino demais. Além
disso, você jamais caçou na sua vida.
— Ele é um macho — respondi, espumando. — Ele deve ser
masculino. Não transforme isto em um dos seus discursos feministas.
Isso não estava dando certo. Eu estava perdendo a paciência. No
momento em que Jenny iria partir para o contra-ataque, eu rapidamente
tentei reforçar meu candidato favorito:
— O que tem de errado com Louie?
— Nada, se você for um frentista de posto de gasolina — ela
replicou.
— Ei! Olha a língua! Este é o nome do meu avô. Acho que então
deveríamos batizá-lo com o nome do seu avô? “O bom cão Bill!”
Enquanto discutíamos, Jenny, num gesto automático, caminhou
até o estéreo e apertou o botão do toca-fitas. Era uma de suas
estratégias de combate marital. Em dúvida, afogue o oponente. Os
acordes reggaes ritmados de Bob Marley começaram a pulsar pelos altofalantes,
produzindo um efeito meloso praticamente instantâneo sobre
nós dois.
Havíamos apenas descoberto o cantor jamaicano falecido quando
nos mudamos de Michigan para a Flórida. No Meio-Oeste americano
apenas ouvíamos Bob Seger e John Cougar Mellencamp. Mas aqui no
caldo étnico pulsante do sul da Flórida, a música de Bob Marley, mesmo
uma década depois de sua morte, estava por toda parte. Ouvíamos no
rádio do carro enquanto descíamos a Biscayne Boulevard. Ouvíamos
tomando cafés cubanos na Pequena Havana e comendo carne de
galinha à moda jamaicana nos pequenos pés-sujos dos sombrios bairros
de imigrantes a oeste de Fort Lauderdale. Ouvíamos enquanto
experimentávamos pela primeira vez uma fritada de moluscos no Festival
de Bahamian Goombay em Coconut Grove em Miami, e fazendo compras
de arte haitiana em Key West.
Quanto mais explorávamos, mais nos apaixonávamos, tanto com o
sul da Flórida e um pelo outro. E sempre ao fundo, aparentemente,
estava Bob Marley. Ele estava lá enquanto tostávamos na praia,
enquanto pintávamos as paredes verdes da nossa casa, quando
acordávamos ao amanhecer com os gritos dos papagaios selvagens, e
fazíamos amor com a primeira luz que filtrava através da pimenteira
brasileira que tínhamos em frente à nossa janela. Nós nos apaixonamos
pela música dele pelo que ela era, mas também por aquilo que ela
definia, o momento em nossas vidas quando deixamos de ser dois e nos
tornamos um. Bob Marley era a trilha sonora de nossa nova vida juntos
neste lugar estranho, exótico e mal-ajambrado, tão diferente de
qualquer outro onde tivéssemos vivido.
E agora, dos alto-falantes, surgia nossa canção preferida dentre
todas, por ser tão pungente e bela, e falar direto ao nosso coração. A
voz de Marley tomou a sala, repetindo o refrão várias vezes: “Is this
love that I’m feeling?”. E, nesse mesmo momento, como se tivéssemos
ensaiado por várias semanas, gritamos, em uníssono:
— Marley!
— É isto! — exclamei. — Este é o nome que estávamos
procurando.
Jenny sorriu, o que era um bom sinal.
Eu ensaiei:
— Venha, Marley! — ordenei. — Sente, Marley! Bom garoto,
Marley!
Jenny se juntou a mim:
— Meu Marley queridinho-inho-inho...
— Ei, eu acho que funciona — disse.
Jenny também achava. Nossa briga acabara. Finalmente
tínhamos o nome de nosso filhote.
Na noite seguinte, depois do jantar, entrei no quarto onde Jenny
estava lendo e eu disse:
— Acho que precisamos incrementar um pouco o nome dele.
— Do que você está falando? — ela perguntou. — Nós adoramos o
nome.
Eu havia lido os papéis de registro do American Kennel Club.
Como um labrador puro-sangue com ambos os pais devidamente
registrados, Marley tinha direito a um registro da AKC também. Isto
apenas seria necessário se planejássemos fazê-lo participar de
exposições ou ter uma criação de cães, quando este papel realmente se
tornava importante. Para um cão de estimação, no entanto, seria
supérfluo. Mas eu tinha grandes planos para o nosso Marley. Esta era a
primeira vez que eu tinha a chance de me aproximar da nobreza,
incluindo a minha própria família. Bem como São Shaun, o cão da
minha infância, de uma linhagem sem distinção. A minha representava
mais países do que a União Européia. Este cão era o mais próximo que
eu chegaria do sangue azul, e eu não deixaria passar nenhuma
oportunidade que me fosse oferecida. Admito que deixei isto me subir à
cabeça.
— Vamos imaginar que queiramos inscrevê-lo em competições —
eu arrematei. — Alguma vez você já viu o campeão com apenas um
nome? Eles sempre têm nomes compridos, como Sir Darworth de
Cheltenham.
— E seu dono, Sir Dorkshire de West Palm Beach — replicou
Jenny.
— Estou falando sério — respondi. — Poderíamos ganhar
dinheiro fazendo-o competir. Você sabe quanto as pessoas pagam por
cães de topo de linha? Todos eles têm nomes extravagantes.
— Faça o que você quiser, meu amor — disse Jenny e voltou a ler
seu livro.
Na manhã seguinte, depois de queimar a mufa até tarde da noite,
peguei-a diante da pia do banheiro e disse:
— Bolei o nome perfeito.
Ela me olhou, cética:
— Diga — ela desafiou.
— Ok. Está pronta? Aí vai.
Pronunciei cada um dos nomes lentamente:
— Grogan’s Majestic Marley of Churchill.
Puxa, pensei, isso soa verdadeiramente nobre.
— Puxa — respondeu Jenny —, isso soa realmente imbecil.
Nem liguei. Eu iria lidar com a papelada, e já tinha escrito o
nome. A caneta. Jenny poderia torcer o nariz quanto quisesse. Quando
Grogan’s Majestic Marley of Churchill recebesse as honras máximas na
Exposição de Cães do Westminster Kennel Club dentro de alguns anos, e
eu passeasse gloriosamente com ele em volta do picadeiro diante de
uma audiência de televisão internacional simplesmente encantada,
veríamos quem iria rir por último.
— Vamos lá, meu duque de nada — disse Jenney —, vamos
tomar o café da manhã.
...
— Eu não vou estar aqui para trazer o pequeno Marley para casa
— ela disse.
— Vá — eu disse. — Eu vou buscar o cachorro, vou acomodálo
e deixá-lo esperando por você chegar em casa.
Tentei parecer despreocupado, mas intimamente eu estava
exultante com a perspectiva de estar sozinho com o novo cachorrinho
por alguns dias num reconhecimento masculino mútuo sem
interrupções. Ele era nosso projeto conjunto, tão meu quanto dela. Mas
eu nunca acreditei que um cachorro pudesse obedecer a dois senhores,
e se fosse para escolher entre os dois na hierarquia doméstica, queria
que fosse eu. Esse curto período de três dias iria me dar esta vantagem.
Uma semana depois, Jenny viajou para Orlando — uma viagem
de três horas e meia de carro. Naquela noite, depois do trabalho, sextafeira,
voltei à casa da criadora para buscar a nova aquisição para o
nosso lar. Quando Lori trouxe meu novo cachorro dos fundos da casa,
meu queixo caiu. O filhotinho que tínhamos escolhido três semanas
antes tinha agora mais do dobro do tamanho. Ele avançou na minha
direção e colocou a cabeça entre os meus tornozelos, caindo junto aos
meus pés e virando de barriga para cima, as patas no ar. Eu interpretei
como um sinal de súplica. Lori deve ter percebido o meu choque e disse:
— Ele está crescido, não está? — perguntou ela, alegremente. —
Você deveria vê-lo comer toda a ração do prato.
Eu me abaixei, fiz um carinho em sua barriga e disse:
— Está pronto para ir para casa, Marley?
Era a primeira vez que eu usava o seu novo nome, e me soou
perfeito.
No carro, coloquei algumas toalhas de praia para fazer um ninho
confortável para ele no banco de passageiro e o acomodei sobre ele.
Mas mal me afastei da entrada de carro e ele começou a se
movimentar e a sair das toalhas. Ele se arrastou em minha direção,
choramingando enquanto avançava. No meio do console, Marley se
deparou com o primeiro de inúmeros de obstáculos que ele encontraria
ao longo de sua vida.
...
— Marley — eu disse, alegremente, levando-o até lá —, este é o
seu quarto.
Espalhei brinquedos para ele morder, coloquei jornais no meio da
garagem, enchi uma vasilha com água, e transformei uma caixa de
papelão forrada com lençóis velhos em uma cama para ele.
E é aqui que você vai dormir — eu disse, colocando-o dentro da
caixa.
Ele estava habituado a dormir numa cama dessas, mas sempre a
dividiu com seus irmãos. Agora ele dava voltas do lado de dentro e
olhava desconsolado para mim. Para testá-lo, saí da garagem e fechei a
porta. Fiquei parado, ouvindo. Num primeiro momento, não houve
nenhum ruído. Em seguida, ele começou a ganir baixinho, quase
inaudível. E depois cresceu para um choro convulso. Parecia que estava
sendo torturado.
Eu abri a porta e assim que me viu ele parou de chorar. Eu me
aproximei e acariciei-o por alguns minutos e saí novamente. Do outro
lado da porta, comecei a contar. Um, dois, três... Ele esperou sete
segundos para começar a ganir e chorar de novo. Repetimos a mesma
cena diversas vezes, todas com o mesmo resultado. Eu estava cansado e
decidi que era hora de ele chorar até dormir. Eu deixei a luz da garagem
acesa para ele, fechei a porta, fui até o outro lado da casa e me deitei na
minha cama. As paredes de concreto não conseguiam abafar seus
ganidos. Continuei deitado, tentando ignorá-los, imaginando que a
qualquer minuto ele desistiria e iria dormir. O choro continuou. Mesmo
depois de tapar os ouvidos com o travesseiro, ainda conseguia ouvi-lo.
Eu pensei nele lá fora sozinho pela primeira vez na vida, neste lugar
estranho, sem um único cheiro de cachorro por perto. Ele não via sua
mãe nem seus irmãozinhos. Coitadinho dele. Eu gostaria de estar no
lugar dele?
Esperei mais meia hora antes de me levantar e ir até ele. Assim
que me viu, sua expressão se alegrou e seu rabo começou a bater nos
lados da caixa de papelão, como se dissesse: “Venha aqui para dentro,
tem lugar de sobra para nós dois!”.
Em vez disso, levantei-o dentro da caixa e levei-o para o meu
quarto, colocando-o no chão ao lado da minha cama. Deitei-me na
beira da cama, e deixei meu braço pendurado para dentro da caixa.
Ali, com a mão sobre ele, sentindo o seu peito subir e descer enquanto
respirava, desmaiamos de sono.
no 1 cap,primeira coisa do livro,onde ele fala do seu 1 cao:
No verão de 1967, quando eu tinha dez anos de idade, meu pai
cedeu aos meus insistentes pedidos e levou-me para comprar meu próprio
cachorro. Fomos juntos na caminhonete da família até uma boa
distância do centro urbano dentro do Estado de Michigan numa
fazenda dirigida por uma mulher bem roceira e sua mãe muito velha. A
fazenda produzia apenas uma mercadoria — cachorros. Cachorros de
todo tipo, tamanho, idade e temperamento imaginável. Eles possuíam
apenas duas coisas em comum: todos tinham procedência totalmente
indistinta e desconhecida, e poderiam ser levados a qualquer hora para
um novo lar. Estávamos num nicho de cães.
— Pense bem, meu filho — disse papai. — Quem você decidir
levar hoje vai viver com você por muitos e muitos anos.
Rapidamente decidi que os cachorros mais velhos deveriam ficar
com outras pessoas. Imediatamente corri para a gaiola dos filhotes.
— Você vai escolher um que não seja tímido — meu pai caçoou.
— Faça barulho nas grades e veja quais deles não se assustam.
Agarrei as barras da gaiola e bati com força. Cerca de uma dúzia
de filhotes se assustaram e correram para o fundo, caindo uns por
cima dos outros, embolando-se todos. Apenas um não se mexeu. Ele
era dourado com uma mancha branca no peito e avançou sobre a
grade, latindo sem medo. Ele saltou e lambeu os meus dedos
avidamente através das barras de ferro. Foi amor à primeira vista.
Eu o trouxe para casa numa caixa de papelão e chamei-o de
Shaun.Ele era o tipo de cachorro que marca todos os outros cachorros.
Ele aprendeu tudo o que lhe ensinei sem esforço e era naturalmente
bem comportado. Eu poderia jogar um naco de comida no chão que ele
não pegaria até que lhe desse permissão. Ele me atendia quando eu o
chamava e ficava parado quando eu ordenava. Poderíamos deixá-lo
passear à noite, sabendo que retornaria depois de fazer seu passeio.
Nem sempre o deixávamos sozinho, mas poderia ficar em casa por horas
sem companhia, confiantes de que não se machucaria nem mexeria em
nada.
é,esse cãozinho e tão obediente q pode passealo com ele ate sem coleira.agora vamos ver +:
Ele estava comigo quando fumei meu primeiro (e o meu último)
cigarro e quando beijei minha primeira namorada. Ele estava bem do
meu lado no banco da frente quando saí escondido com o carro do meu
irmão mais velho para dar minha primeira volta no quarteirão.
Shaun era espirituoso, porém controlado, amoroso e calmo.
e no 2 cap
Nós éramos jovens. Estávamos apaixonados. Estávamos nos
deleitando naqueles sublimes primeiros dias de casamento quando a
vida parece que não pode se tornar mais maravilhosa. Mal
conseguíamos ficar longe um do outro.
Então, numa noite de janeiro de 1991, eu e minha mulher,
casada há quinze meses comigo, jantamos rapidamente e partimos para
responder a um anúncio classificado do Palm Beach Post.
Por que estávamos fazendo isso, eu não tinha certeza.
...lembrando q estou monstrando um pouco do livro.+:
— Ah... — eu disse, num tom gentil de marido recém-casado,
ainda pisando em ovos. — Há algo que eu deveria saber?
Ela não me respondeu.
— Jen... Jen?
— É a planta — ela disse, finalmente, num tom de voz
ligeiramente desesperado.
— A planta? — perguntei.
— Aquela planta estúpida — ela disse. — Aquela que nós
matamos.
Aquela que nós matamos? Eu não queria mencionar o assunto,
mas, apenas esclarecendo, foi a planta que eu comprei e que ela
matou. E a trouxe de surpresa, certa noite, uma imensa comigoninguém-
pode, com folhas em belos tons bege, amarelo e esmeralda.
— Qual é a ocasião? — ela perguntou.
Mas não havia nenhuma. Eu lhe dei a planta sem nenhum
motivo especial além de querer dizer a ela:
— Nossa, não é ótimo estarmos casados?
Ela adorou tanto o meu gesto quanto a planta e agradeceu-me,
jogando seus braços em volta do meu pescoço e beijando-me nos lábios.
Então, foi imediatamente matar o presente que dei a ela com uma eficiência
fria e assassina. Não que ela quisesse matá-la; como se fosse nada, ela
aguou a coitadinha até morrer. Jenny não tinha grandes pendores para
plantas. Imaginando que todos os seres viventes precisam de água, mas
aparentemente se esquecendo que também precisam de ar, ela se pôs a
encharcar a planta diariamente.
— Tome cuidado para não aguá-la demais — eu a prevenia.de água na coitadinha.
Quanto mais fraca a planta ficava, mais água ela colocava, até
praticamente dissolvê-la.
... +,qd john leva jenny á escolhe o cão:
— Imagino que devam estar loucos para ver os filhotes.
Ela nos conduziu através da cozinha até um quarto de serviço que
fora transformado em berçário. O chão estava coberto de folhas de jornal
e, num canto estava uma caixa baixa forrada com antigas toalhas de
praia. Mas mal reparamos nesses detalhes. Como poderíamos, ao ver
nove filhotes amarelos minúsculos, um subindo por cima do outro,
tentando ver quem eram os novos estranhos que apareciam ali? Jenny
suspendeu sua respiração.
— Meu Deus — ela disse. — Acho que nunca vi algo tão lindinho
em toda a minha vida.
Sentamo-nos no chão e deixamos os filhotes subir por cima de nós,...
A ninhada tinha cinco fêmeas e quatro delas já estavam
reservadas e quatro machos. Lori estava pedindo US$ 400 pela última
fêmea e US$ 375 pelos machos. Um dos machos parecia ter-se
apaixonado por nós. Ele era o mais palhaço de todos e avançava sobre
nós, pulando no nosso colo e agarrando-nos com as patas para escalar
pela roupa e lamber nosso rosto. Ele mordiscava nossos dedos com
dentes de leite afiados e andava trôpego em círculos à nossa volta com
patas redondas gigantescas, totalmente fora de proporção quanto ao
restante do seu corpo.
— Este vocês podem levar por US$ 350 — disse a criadora.
Jenny é uma caçadora de barganhas que traz para casa qualquer
coisa que sequer queiramos ou precisemos apenas porque estava sendo
vendida a um preço atraente demais para ser deixada para trás.
— Sei que você não pratica golfe — ela me disse um dia, puxando
um conjunto de tacos usados do carro. — Mas você não acreditaria no
preço que paguei por eles.
Agora eu via seus olhos se iluminarem.
— Ah, amorzinho — ela arrulhou. — Estezinho está a preço de
liquidação!
Eu tive de admitir que ele era adorável. E elétrico, também. Antes
que eu percebesse o que ele iria fazer, o danadinho havia mastigado
metade da correia do meu relógio.
— Temos de fazer o teste do medo — eu disse.
Eu havia contado a Jenny inúmeras vezes a história de como
escolhera São Shaun quando era menino, e que meu pai me ensinara a
fazer um movimento brusco ou um barulho bem alto para distinguir os
tímidos dos mais confiantes. Sentada entre os filhotes, ela revirou os olhos
como sempre fazia toda vez que se deparava com um comportamento
estranho da família Grogan.
— E sério — eu disse —, isso funciona.
Eu me levantei, me afastei dos filhotes, então me virei
rapidamente de novo, avançando de repente na direção deles com um
passo largo. Bati o pé e exclamei:
— Ei!
Nenhum deles parecia ter-se abalado com as minhas contorções.
Apenas um pulou, encarando-me de frente. Era o Cão de Liquidação. Ele
avançou sobre mim, entrando entre meus calcanhares e agarrando os
meus cadarços como se fossem perigosos inimigos que precisassem ser
destruídos.
— Creio que este seja o escolhido pelo destino — disse Jenny.
— Você acha? — eu perguntei, pegando-o e segurando-o numa
das mãos diante do rosto, estudando suas feições.
Ele olhou para mim com olhos marrons chorosos de cortar o
coração e então lambiscou o meu nariz. Eu o coloquei nos braços de
Jenny e ele repetiu o gesto.
— Com certeza ele parece gostar de nós — eu disse.
E assim foi feito. Entregamos um cheque de US$ 350 à Lori e ela
nos disse que poderíamos voltar para levar nosso Cão de Liquidação
para casa em mais três semanas, quando ele teria oito semanas de idade
e estivesse desmamado. Agradecemos a ela, fizemos um último carinho
em Lily e nos despedimos.
... pra escolhe o nome dele:— Chelsea? — eu perguntei. — Esse é um nome tão sofisticado.
Nenhum cão macho teria esse nome.
— Como se ele se importasse com o próprio nome — Jenny
replicou.
— Caçador — eu disse. — Caçador é perfeito.
— Caçador? Você está brincando, não é? O que deu em você, um
ataque de machismo esportivo? E um nome masculino demais. Além
disso, você jamais caçou na sua vida.
— Ele é um macho — respondi, espumando. — Ele deve ser
masculino. Não transforme isto em um dos seus discursos feministas.
Isso não estava dando certo. Eu estava perdendo a paciência. No
momento em que Jenny iria partir para o contra-ataque, eu rapidamente
tentei reforçar meu candidato favorito:
— O que tem de errado com Louie?
— Nada, se você for um frentista de posto de gasolina — ela
replicou.
— Ei! Olha a língua! Este é o nome do meu avô. Acho que então
deveríamos batizá-lo com o nome do seu avô? “O bom cão Bill!”
Enquanto discutíamos, Jenny, num gesto automático, caminhou
até o estéreo e apertou o botão do toca-fitas. Era uma de suas
estratégias de combate marital. Em dúvida, afogue o oponente. Os
acordes reggaes ritmados de Bob Marley começaram a pulsar pelos altofalantes,
produzindo um efeito meloso praticamente instantâneo sobre
nós dois.
Havíamos apenas descoberto o cantor jamaicano falecido quando
nos mudamos de Michigan para a Flórida. No Meio-Oeste americano
apenas ouvíamos Bob Seger e John Cougar Mellencamp. Mas aqui no
caldo étnico pulsante do sul da Flórida, a música de Bob Marley, mesmo
uma década depois de sua morte, estava por toda parte. Ouvíamos no
rádio do carro enquanto descíamos a Biscayne Boulevard. Ouvíamos
tomando cafés cubanos na Pequena Havana e comendo carne de
galinha à moda jamaicana nos pequenos pés-sujos dos sombrios bairros
de imigrantes a oeste de Fort Lauderdale. Ouvíamos enquanto
experimentávamos pela primeira vez uma fritada de moluscos no Festival
de Bahamian Goombay em Coconut Grove em Miami, e fazendo compras
de arte haitiana em Key West.
Quanto mais explorávamos, mais nos apaixonávamos, tanto com o
sul da Flórida e um pelo outro. E sempre ao fundo, aparentemente,
estava Bob Marley. Ele estava lá enquanto tostávamos na praia,
enquanto pintávamos as paredes verdes da nossa casa, quando
acordávamos ao amanhecer com os gritos dos papagaios selvagens, e
fazíamos amor com a primeira luz que filtrava através da pimenteira
brasileira que tínhamos em frente à nossa janela. Nós nos apaixonamos
pela música dele pelo que ela era, mas também por aquilo que ela
definia, o momento em nossas vidas quando deixamos de ser dois e nos
tornamos um. Bob Marley era a trilha sonora de nossa nova vida juntos
neste lugar estranho, exótico e mal-ajambrado, tão diferente de
qualquer outro onde tivéssemos vivido.
E agora, dos alto-falantes, surgia nossa canção preferida dentre
todas, por ser tão pungente e bela, e falar direto ao nosso coração. A
voz de Marley tomou a sala, repetindo o refrão várias vezes: “Is this
love that I’m feeling?”. E, nesse mesmo momento, como se tivéssemos
ensaiado por várias semanas, gritamos, em uníssono:
— Marley!
— É isto! — exclamei. — Este é o nome que estávamos
procurando.
Jenny sorriu, o que era um bom sinal.
Eu ensaiei:
— Venha, Marley! — ordenei. — Sente, Marley! Bom garoto,
Marley!
Jenny se juntou a mim:
— Meu Marley queridinho-inho-inho...
— Ei, eu acho que funciona — disse.
Jenny também achava. Nossa briga acabara. Finalmente
tínhamos o nome de nosso filhote.
Na noite seguinte, depois do jantar, entrei no quarto onde Jenny
estava lendo e eu disse:
— Acho que precisamos incrementar um pouco o nome dele.
— Do que você está falando? — ela perguntou. — Nós adoramos o
nome.
Eu havia lido os papéis de registro do American Kennel Club.
Como um labrador puro-sangue com ambos os pais devidamente
registrados, Marley tinha direito a um registro da AKC também. Isto
apenas seria necessário se planejássemos fazê-lo participar de
exposições ou ter uma criação de cães, quando este papel realmente se
tornava importante. Para um cão de estimação, no entanto, seria
supérfluo. Mas eu tinha grandes planos para o nosso Marley. Esta era a
primeira vez que eu tinha a chance de me aproximar da nobreza,
incluindo a minha própria família. Bem como São Shaun, o cão da
minha infância, de uma linhagem sem distinção. A minha representava
mais países do que a União Européia. Este cão era o mais próximo que
eu chegaria do sangue azul, e eu não deixaria passar nenhuma
oportunidade que me fosse oferecida. Admito que deixei isto me subir à
cabeça.
— Vamos imaginar que queiramos inscrevê-lo em competições —
eu arrematei. — Alguma vez você já viu o campeão com apenas um
nome? Eles sempre têm nomes compridos, como Sir Darworth de
Cheltenham.
— E seu dono, Sir Dorkshire de West Palm Beach — replicou
Jenny.
— Estou falando sério — respondi. — Poderíamos ganhar
dinheiro fazendo-o competir. Você sabe quanto as pessoas pagam por
cães de topo de linha? Todos eles têm nomes extravagantes.
— Faça o que você quiser, meu amor — disse Jenny e voltou a ler
seu livro.
Na manhã seguinte, depois de queimar a mufa até tarde da noite,
peguei-a diante da pia do banheiro e disse:
— Bolei o nome perfeito.
Ela me olhou, cética:
— Diga — ela desafiou.
— Ok. Está pronta? Aí vai.
Pronunciei cada um dos nomes lentamente:
— Grogan’s Majestic Marley of Churchill.
Puxa, pensei, isso soa verdadeiramente nobre.
— Puxa — respondeu Jenny —, isso soa realmente imbecil.
Nem liguei. Eu iria lidar com a papelada, e já tinha escrito o
nome. A caneta. Jenny poderia torcer o nariz quanto quisesse. Quando
Grogan’s Majestic Marley of Churchill recebesse as honras máximas na
Exposição de Cães do Westminster Kennel Club dentro de alguns anos, e
eu passeasse gloriosamente com ele em volta do picadeiro diante de
uma audiência de televisão internacional simplesmente encantada,
veríamos quem iria rir por último.
— Vamos lá, meu duque de nada — disse Jenney —, vamos
tomar o café da manhã.
...
— Eu não vou estar aqui para trazer o pequeno Marley para casa
— ela disse.
— Vá — eu disse. — Eu vou buscar o cachorro, vou acomodálo
e deixá-lo esperando por você chegar em casa.
Tentei parecer despreocupado, mas intimamente eu estava
exultante com a perspectiva de estar sozinho com o novo cachorrinho
por alguns dias num reconhecimento masculino mútuo sem
interrupções. Ele era nosso projeto conjunto, tão meu quanto dela. Mas
eu nunca acreditei que um cachorro pudesse obedecer a dois senhores,
e se fosse para escolher entre os dois na hierarquia doméstica, queria
que fosse eu. Esse curto período de três dias iria me dar esta vantagem.
Uma semana depois, Jenny viajou para Orlando — uma viagem
de três horas e meia de carro. Naquela noite, depois do trabalho, sextafeira,
voltei à casa da criadora para buscar a nova aquisição para o
nosso lar. Quando Lori trouxe meu novo cachorro dos fundos da casa,
meu queixo caiu. O filhotinho que tínhamos escolhido três semanas
antes tinha agora mais do dobro do tamanho. Ele avançou na minha
direção e colocou a cabeça entre os meus tornozelos, caindo junto aos
meus pés e virando de barriga para cima, as patas no ar. Eu interpretei
como um sinal de súplica. Lori deve ter percebido o meu choque e disse:
— Ele está crescido, não está? — perguntou ela, alegremente. —
Você deveria vê-lo comer toda a ração do prato.
Eu me abaixei, fiz um carinho em sua barriga e disse:
— Está pronto para ir para casa, Marley?
Era a primeira vez que eu usava o seu novo nome, e me soou
perfeito.
No carro, coloquei algumas toalhas de praia para fazer um ninho
confortável para ele no banco de passageiro e o acomodei sobre ele.
Mas mal me afastei da entrada de carro e ele começou a se
movimentar e a sair das toalhas. Ele se arrastou em minha direção,
choramingando enquanto avançava. No meio do console, Marley se
deparou com o primeiro de inúmeros de obstáculos que ele encontraria
ao longo de sua vida.
...
— Marley — eu disse, alegremente, levando-o até lá —, este é o
seu quarto.
Espalhei brinquedos para ele morder, coloquei jornais no meio da
garagem, enchi uma vasilha com água, e transformei uma caixa de
papelão forrada com lençóis velhos em uma cama para ele.
E é aqui que você vai dormir — eu disse, colocando-o dentro da
caixa.
Ele estava habituado a dormir numa cama dessas, mas sempre a
dividiu com seus irmãos. Agora ele dava voltas do lado de dentro e
olhava desconsolado para mim. Para testá-lo, saí da garagem e fechei a
porta. Fiquei parado, ouvindo. Num primeiro momento, não houve
nenhum ruído. Em seguida, ele começou a ganir baixinho, quase
inaudível. E depois cresceu para um choro convulso. Parecia que estava
sendo torturado.
Eu abri a porta e assim que me viu ele parou de chorar. Eu me
aproximei e acariciei-o por alguns minutos e saí novamente. Do outro
lado da porta, comecei a contar. Um, dois, três... Ele esperou sete
segundos para começar a ganir e chorar de novo. Repetimos a mesma
cena diversas vezes, todas com o mesmo resultado. Eu estava cansado e
decidi que era hora de ele chorar até dormir. Eu deixei a luz da garagem
acesa para ele, fechei a porta, fui até o outro lado da casa e me deitei na
minha cama. As paredes de concreto não conseguiam abafar seus
ganidos. Continuei deitado, tentando ignorá-los, imaginando que a
qualquer minuto ele desistiria e iria dormir. O choro continuou. Mesmo
depois de tapar os ouvidos com o travesseiro, ainda conseguia ouvi-lo.
Eu pensei nele lá fora sozinho pela primeira vez na vida, neste lugar
estranho, sem um único cheiro de cachorro por perto. Ele não via sua
mãe nem seus irmãozinhos. Coitadinho dele. Eu gostaria de estar no
lugar dele?
Esperei mais meia hora antes de me levantar e ir até ele. Assim
que me viu, sua expressão se alegrou e seu rabo começou a bater nos
lados da caixa de papelão, como se dissesse: “Venha aqui para dentro,
tem lugar de sobra para nós dois!”.
Em vez disso, levantei-o dentro da caixa e levei-o para o meu
quarto, colocando-o no chão ao lado da minha cama. Deitei-me na
beira da cama, e deixei meu braço pendurado para dentro da caixa.
Ali, com a mão sobre ele, sentindo o seu peito subir e descer enquanto
respirava, desmaiamos de sono.
MARLEY & EU
eu tive que colocar um post disso.alias,um marcador!
pra começar,sem trata de um livro(de vida real,do narrador)e um filme baseado nesse livro!
jennifer aniston e owen wilson fazem jenny e john grogan.(no filme,obvio)É um casal(filme de comedia romatica alias)que se casam em dia de da pior nevasca Michigan.isso e discutido,no filme,jenny e jogh:
_sera q isso e sorte ou azar?acho que é sorte(jenny)
jenny,mostra no filme q ela planeja sua vida em certos passos,descrito no papel.1 era encontra o homem ideal,2 casa-se(com outro,brincadeira,com esse ideal,brincadeira feita no filme),e por aí vai com achar uma ksa,trabalho,muda-se pra um lugar + quente q é a Florida(oltima escolha,tambem preferia um lugar quente ao inves de frio).e tambem t filhos,decisão dificil...
jenny e john são jornalistas.ele trabalha no jornal,sendo promovido varias vezes no filme...
o lugar onde eles foram morarar é West Palm Beach, na Flórida.(ja ate disse)
eles tiverem 3 filhos,Patrick, Conor e Colleen(a caçula e a unica menina).
e claro,o casal tiveram o marley,um cachorro labrador.
depois postarei +...
eu tive que colocar um post disso.alias,um marcador!
pra começar,sem trata de um livro(de vida real,do narrador)e um filme baseado nesse livro!
jennifer aniston e owen wilson fazem jenny e john grogan.(no filme,obvio)É um casal(filme de comedia romatica alias)que se casam em dia de da pior nevasca Michigan.isso e discutido,no filme,jenny e jogh:
_sera q isso e sorte ou azar?acho que é sorte(jenny)
jenny,mostra no filme q ela planeja sua vida em certos passos,descrito no papel.1 era encontra o homem ideal,2 casa-se(com outro,brincadeira,com esse ideal,brincadeira feita no filme),e por aí vai com achar uma ksa,trabalho,muda-se pra um lugar + quente q é a Florida(oltima escolha,tambem preferia um lugar quente ao inves de frio).e tambem t filhos,decisão dificil...
jenny e john são jornalistas.ele trabalha no jornal,sendo promovido varias vezes no filme...
o lugar onde eles foram morarar é West Palm Beach, na Flórida.(ja ate disse)
eles tiverem 3 filhos,Patrick, Conor e Colleen(a caçula e a unica menina).
e claro,o casal tiveram o marley,um cachorro labrador.
depois postarei +...
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